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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


2013: O DESCONCERTANTE DESAFIO DA LIBERDADE
Euler Sandeville, 21/06/2013

Bem, para pensar um pouco imerso na temperatura dos acontecimentos, vou arriscar uma reflexão ou ensaio sobre esses eventos em curso, um pensar em processo que será aprimorado e modificado pelo debate e pelos acontecimentos.

Uma das coisas que agora se veicula, e que pode ter um caráter de instrumentalização por um lado, de apropriação por outro, ou ainda mesmo de insegurança pela forma horizontal com que se apresentam esses movimentos, é de que falta liderança política que represente esse povo que foi às ruas. Quero questionar essa ideia.

Não acho que falte, nem que precise. Estamos diante de uma nova forma e possibilidade de organização, com raízes múltiplas em um imaginário bem anterior e não unitário, potencializado por novas formas de relação social, de participação, de mediação da comunicação e dos saberes pelas tecnologias, da instantaneidade do mundo, de uma difusão de direitos e, inclusive, de sua amenização ou adocicamento na formação desde uma escola politicamente correta e produtivista, que também dá seus frutos agora.

Mas também é necessário questionar outras ideias correlatas. Duas bem comuns. Uma, de que os partidos são necessários nessas manifestações: não são. E foi um erro, um abuso mesmo se colocarem de camisas vermelhas, afrontando uma manifestação que se não era só contra eles, mas sem dúvida os questionava. Tinham direito de estar? Sim, como os de direita também teriam. Ajudavam na construção e no amadurecimento dese movimento?

Não, provocavam e confrontavam, colocando o ambiente mais próximo da torcida de futebol e da política partidária do plenário do que da construção da consciência política, reivindicando uma posição em que não estavam senão defensiva e desatualizadamente: não era o momento nem a forma. Nem explicitava de modo algum o passado em que esse Partido teve um papel tão relevante,, ao contrário, chamava atenção e fragilizava diante das suas contradições dos últimos tempos tão evidentes a todos. O que não justifica serem hostilizados, mas justifica serem confrontados.

O problema é que esse limiar é tênue em coisa de tal envergadura e essa polarização entre direita e esquerda que assim se recoloca, com todos os temores e amargas lembranças que traz, precisa ser recusada neste momento. Nesse ponto, talvez mais ainda do que em outros, o país não amadureceu para o debate, e debate exige liberdade, mas o que há ainda é confronto e marcas muito doloridas, uma fragilidade reforçada pelas instituições engendradas em outros tempos e mal atualizadas neste. De uma forma ou de outra, tais grupos partidários organizados pretendem interferir e se reapropriar dos espaços em que são rechaçados, mas não entendem o que se critica, não se recolocam em suas práticas, em sua natureza mesma no processo.

Outra, a ideia tão equivocada quanto as anteriores é a de fim dos partidos. Estes devem sim perceber o quanto se afastaram das questões urgentes e reais do país em suas festas, certezas e acordos reclusos nos quais se decidem candidatos, financiamentos e obras. Fica um vazio de suas práticas que é a causa maior desse questionamento, e a distância entre o que se diz e o que se fala. Mas sua supressão não é uma pauta. Não ouvi-los e não aceitar sua liderança comprometida faz todo sentido nesse momento, mas o questionamento não pode parar num nível tão raso, sob o risco de não se ter para onde ir, não porque os partidos sejam a solução, mas porque não há formas que os controlem e sobretudo que controlem quem os possa suprimir.

Dizia um pensador (Karl Popper) que mais importante do quem quem está no poder é como os que não estão vão controlar os que estão e, eu acrescentaria, ter os meios para definir as prioridades e ações necessárias e seu monitoramento. Suprimir os partidos que historicamente agem de um modo que ainda remonta ao Império – é necessário que isso seja dito –, seria entretanto inviabilizar a própria possibilidade de participação, ao invés de ampliá-la.

Esta não é uma defesa dos partidos, é uma afirmação de que a transformação não vem por aí. É simples demais essa postura, como o são as velhas e palavras de ordem. Não se enxerga o que encobrem. Pior, torna ainda mais invisível, pelo seu desconforto, o processo, é um modo não de enfrentar e não inventar, um modo de desviar os olhos do que faz doer e decepciona. E comprometer as atuais formas de participação, que devem ser sim questionadas porque se tornaram apenas formas de homologação e cooptação, não é suficiente para engendrar novas formas de participação que, de fato, não estão no horizonte de tal expressão em curso.

Finalmente, uma condição que vem caminhando pelos extremos com essas, é a da violência, mas falarei mais abaixo por seu papel na percepção das condições atuais e por ser constitutiva de determinados comportamentos que não são coletivos, mas na multidão encontram a possibilidade de expressão.

O que ocorre é desconcertante e imprevisível para esses grupos e assustador para pessoas ainda silenciadas em um tempo que não volta, e que se voltar será bem assombroso. O que ocorre é que muita gente está falando, não tanto nas redes, nem é uma transposição das redes para o espaço como também se disse. É o corpo presente no espaço, como o enfrentamento de bombas de gaz e balas tendo apenas o corpo como anteparo deixa claro. E que espaço é esse? É o espaço do cotidiano em que se reproduzem esses problemas, é o espaço público em que as questões ganham visibilidade e sentido na vida de cada um.

As redes têm, claro, como em todos esses movimentos recentes, um papel importante. Mas não são elas nesse momento senão o lugar de informação e troca, o lugar de acontecimento é o espaço do cotidiano em ruptura, um acontecimento no lugar mesmo da vida, a cidade. Meus caros, esse espaço é o da cidade, o da partilha de condições que se deseja transformar.

Não é necessário unidade, mas há pontos fortes de convergência, e uma solidarização internacional com os direitos, além de uma capacidade imensa de contágio. Também, ao contrário do que alguns analistas dizem de que não há uma pauta revisto o reajuste (tardaram os governos a entender e a decidir, agindo com violência e afirmações de autoridade voláteis, ampliando o alcance do sentido subjacente), isso ainda não leva a entender e perceber o que se mobiliza.

Na verdade, até aqui, a pauta parece, no seu geral, bastante clara e suas causas também e seu multifacetamento expressivo em sua grande parte tem um fundo comum. O que não é comum é o modo de ler/vivenciar isso dentro de campos ideológicos e de (in)experiências de vida e de participação em que se levantam os conteúdos aparentemente comuns. Mas isso em si não é um problema, é uma nova condição. Será um problema – e isso agora efetivamente se coloca – se nesse amplo espaço de divergência não se for capaz de construir uma paixão pela vida e uma razão solidária para a transformação.

Nesse ponto, acho que um desconforto, uma dificuldade de se situar em um mundo em mudança, atinge tanto à classe média mais tradicional, e outros setores tradicionais e conservadores, quanto a setores engajados. Quanto aos setores mais conservadores, parece haver um desejo de recuperar uma ordem que não é que não exista mais, mas que é tão dinâmica que é sentida como ameaçadora (mesmo naquilo que tem de conservadora, mas de ordinário não é percebida assim).

Nesse caso, favorece visões que tendem a um autoritarismo potencialmente negativo dos mesmos valores que o levantam, sem a consciência disso ainda que pequenos grupos saibam exatamente o que estão fazendo – satisfazendo sua insatisfação sem possibilidade outra que não ampliar a insatisfação, e nisso reside toda satisfação. Setores mais engajados, mas também mais tradicionais em suas formas de organização, parecem ter dificuldades de se desprender das fórmulas prontas de interpretação e ação, posicionando-se diante de um novo quadro.

O que talvez torne esses movimentos mais desconcertantes para muitas pessoas acostumadas à dicotomia como zona de conforto pela negação mútua, é que esses não são os únicos setores sociais (e não é possível pensar os últimos acontecimentos descolados de outros no país e no mundo). Há setores (uso essa expressão para uma comunicação rápida) que pertencem a grupos de formação mais libertária, que amadureceram e amadurecem em processos coletivos de trabalhos há pouco mais de uma década, e são decisivos tanto nas formas de organização, quanto no ideário, quanto nas táticas. Desprezados pelos setores institucionalizados de busca do poder, mostram-se com uma pauta mais relevante, alegre, vital, irreverente e atual do que esses grupos. E movidos por uma mentalidade mais libertária em latência, senão desprezam, fortemente questionam os grupos mais tradicionais em um ponto além das categorias que aqueles operam sua validação interpretativa.

São essas as pautas que, em parte, se tornam assunto de toda a sociedade, e nesse momento não são vistas como propriedade de um grupo capaz de interpretar as novas formas de posicionamento em torno delas. Mas as novas formas de ação (as pautas não são novas) estão para além das esquerdas tradicionais e normativas (que contribuíram imensamente e de modo decisivo em outros momentos para a construção dessas pautas juntamente com outros setores de feição mais libertária ou humanista em uma complexa história de lutas sociais). O problema, que só vou mencionar, é que essas pautas agora não são apenas oposição, atendem também, transformadas em negócios, as condições mais recentes e dinâmicas do capital que delas também vai se apropriando.

E há, o que talvez surpreenda mais ainda, um conjunto enorme de pessoas que não pertencem a nenhum grupo ou talvez até a grupos de amigos, que estão defendendo princípios, ainda que seu campo ideológico possa ter significações muito amplas e díspares. Por outro lado, há grupos reprimidos não apenas pelas (des)informações sobre os desmandos da classe política e dos grupos econômicos que são assim colocados neste momento em causa, desmandos que também percebem, mas por uma longa e brutal exclusão, que rouba e limita esperanças, que tem estado aí recriando suas condições de vida, cultura e criatividade, de habitação e mobilidade, sem serem de fato percebidos em sua identidade e aventura na mesma cidade.

Por fim, há grupos predispostos á violência, e ao que tudo indica, com diversos matizes decorrentes de radicalizações e banalizações, de um desconforto extremado com essas condições e que se incluem no grupos anteriores e deles se despregam. Sem considerar a possibilidade de pessoas mobilizadas intencionalmente para produzir conflitos com finalidades diversas. Não se pode desconsiderar que sejam estimulados por uma cultura mais ampla, como a da polícia (se não em seu conjunto, a corporação passa essa afeição pelo dobrar pela força e subjugar). Embora essas forças armadas em muitos momentos tenham dado mostras de uma outra atitude, seu aparato é intimidador, e sua história tanto recente quanto mais antiga está ainda contaminada por ações de arbitrariedade e corrupção que, mesmo que não sejam de toda a corporação, acabam formando uma representação popular e de governantes muito enraizada nessa condição. Condição que não é apenas imaginária, e que não é enfrentada pelos responsáveis por sua liderança, embebidos no mesmo meio mental.

Outros, talvez nem pertençam a grupos organizados que radicalizam sua inserção social, sejam estudantes, sejam grupos de jovens sem muita perspectiva e frequentemente sem maiores ideias além do próprio agrupamento, seja de grupos militarizados fora das instituições ou a eles próximos pela condição assumida de marginalidade, seja ainda por um quê de torcida de futebol no anonimato na multidão. A violência, seja de direita como muitas vezes é, seja do próprio aparato de um estado confrontado em seus desmandos, seja de grupos de esquerda minoritários, têm mais insatisfação do que ideologia. A violência, na verdade, é uma opção de natureza conformadora, pouco criativa, e portanto, autoritária e conservadora. Além de arbitrária. Podemos entender o que leva a ela, não podemos aceitá-la.

Mas se estas coisas estão ao alcance dos olhos, não são as causas e há muitas coisas que não ficam claras, e que ficam veladas. O que não fica claro é a diversidade de visões políticas falando a mesma coisa, usando as mesmas palavras muitas vezes. Mas acho que essa condição – embora no extremo tenda a ser problemática, pode também ser uma condição do processo e que convida a amadurecer, potencialmente, o diálogo.

Falta entender e divergir em um campo mais consistente de práticas das pessoas que extravasam para a violência – que em muitos momentos parece uma pauta emocional autônoma, tornando o movimento um pretexto para um descontentamento de outro tipo, mas mesmo isso ainda precisa ser explicitado. Precisamos diferir os grupos que abraçam em agonia íntima essas opções, que poderão se tornar muito graves. Finalmente, acho que falta fazer mais fortes alguns princípios de resistência pacífica e construtiva, que a própria polícia e o governo em diversos momentos contribuíram para deformar.

No entanto, esse tipo de movimento que tende a se tornar mais amplo em pautas comuns, é interessante, sobretudo se amadurecer para distinguir a validade das pautas e o modo de lidar com as diferenças, além de manter a recusa à apropriação dos partidos e grupos, que está no espírito de movimentos desse tipo. Embora a formação para esse estado possa ser buscado em outros movimentos recentes, diferem muti de outros momentos cívicos como Diretas e Tchau Collor, que não foi embora, convocados sobre um anseio geral, mas a partir de uma condição institucionalizada. O que está ocorrendo – e tudo pode mudar a qualquer momento – faz parte de uma construção mais ampla da mentalidade contemporânea e das formas de comunicação e busca de identidade e ação que passa por movimentos que não são apenas jovens, embora muito disseminados nessa condição, de inspiração libertária e coletiva.

O que não quer dizer, de modo algum, que os atuais acontecimentos tenham uma condição libertária. São ambíguos, abrigam várias condições contraditórias, em que a barbárie reside como uma possibilidade, animada pela falta de civilidade e decoro das lideranças e poderes. Obviamente, não sonharia com isso.

Mas há potência para amadurecer em outra direção, numa outra forma de participação que ultrapasse as formas já desgastadas e inadequadas, tanto quanto há potência para recaptura em outras formas de manipulação e alienação do cotidiano. Uma coisa no momento parece inevitável, formas de manifestação pública não poderão nesse momento ser obstaculizadas, e um modo mais brutal de fazê-lo (sob o medo de trazerem prejuízo por exemplo aos grandes negócios representados pela copa) trará à lembrança palcos bem menos animadores, como vimos em diversos países recentemente.

Alguma perplexidade? Temeridade? Natural, estamos diante de uma experiência nova para nós. Elementos que são oportunidade para construção de novas possibilidades ou para reafirmação de velhas e muito negativas fórmulas. Quem escreverá isso? Um pouco os velhos poderes e partidos que se perpetuam como naquele ditado popular da mosca, um pouco todos nós que estamos diante do nosso tempo e de suas necessidades, um tanto forças políticas neoliberais que disputam novos espaços de organização e representação. Não há solução na vida, infelizmente há um embate constante entre as melhores e piores possibilidades, no qual aprendemos e dizemos quem somos.

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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