outros escritos

euler sandeville


início     a busca por Deus     artes     poesias     outros escritos     sobre




desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


COMPROMETIMENTO GRAVE EM EDUCAÇÃO E O PODER DE UMA FOTO
Euler Sandeville 24/04/2014

Este ensaio deriva de um debate iniciado no facebook, a partir da foto que circulou nos jornais Folha e Estado nessa mesma data. Como em outros ensaios, procura refletir sobre os acontecimentos em curso no momento, sem o conforto da distância e com os riscos da proximidade. O debate convergiu em uma análise da iconografia mobilizada.No grupo do Conselho Participativo Municipal, um conhecido publicou a foto, acima que consta hoje nos jornais Folha e Estado, com a seguinte pergunta a partir dessa foto:

"Você confiaria a educação de seus filhos a um desses caras? Será que já não está fazendo isso, mesmo que inconscientemente?"

No caso, foi um uso político da foto, no contexto do campo de acontecimentos polarizados que ganha o cenário nacional. A própria exposição pelos jornais pode ter tido uma intensão de uso político, e destaca-se que a mesma foto foi publicada na primeira página dos dois concorrentes, sugerindo sua fonte em uma agência de distribuição. Mas aqui não me cabe discutir a intenção ou motivação de meu conhecido. Interessa-me expor o campo simbólico e político que mobiliza, e oculta, pois permite ponderar sobre como estamos construindo campos de representações que afetam nossas decisões e juízos.

De início, quero deixar claro que, na minha opinião, "esses caras" ultrapassaram, e muito, erraram, perderam a razão, devem ser chamados a uma conversa e responsabilizados, mesmo considerando um contexto de forte stress que não se restringe ao acontecimento. Porém, essa posição não esgota a compreensão do campo simbólico posto em movimento pela imagem, e pela imagem na primeira página: "uma imagem vale por mil palavras".

Mas a pergunta proposta amparada na imagem mobiliza um campo subjetivo e político, e também social e institucional, muito mais amplo. O problema da pergunta inicial, “você confiaria neles?”, é maior, pois atinge e solapa todas as agruras do sistema educacional, injustiçando uma quantidade imensa de professores que persistem apesar das condições profundamente adversas.

A foto, ao identificá-los como professores na primeira página, em notícia da greve, os torna símbolo de toda uma categoria que talvez não sinta-se representada pela atitude. A pergunta - você confiaria neles? - passa a ser dirigida por generalização contra todos os professores da rede pública (tenha sido essa ou não a intenção). Além disso, deveria ser óbvio que não podem ser confundidos com o movimento de professores, mas a necessidade de polarizar os campos políticos favorece manifestações nessa direção. Ou seja, a pergunta de meu conhecido conduz a uma redução e se dissemina, desviando da questão central. Qual é a então questão central?

O fato se dá em um campo maior, subsumido para além da força da imagem na primeira página. Se esse pequeno grupo deve ser questionado, seu destino, e sobretudo o do conjunto de professores presentes ou não na manifestação em que ocorreu essa exacerbação, se entrelaça agora, contra a vontade de muitos professores, de modo dúbio com o destino institucional e político em que se situam. É uma operação ideológica que atinge assim uma categoria que se notabiliza pelo trabalho mesmo em condições muito precárias e é também uma operação ideológica a atingir a própria estrutura do ensino público. Portanto, também, e ainda mais, devem ser chamados à responsabilidade pública pela sociedade e suas instituições a Secretaria de Educação e o Governo do Estado, que vem comprometendo coisas básicas: saúde, educação e abastecimento, sendo mais notórios os casos da dengue e desabastecimento de água. A pergunta inicial do meu conhecido poderia então ser reproposta, com maiores implicações, por uma outra:

Você confiaria a educação básica e saúde de seus filhos a esse governo?

Ocorre que o que ganhou notoriedade e expressão foi a ação isolada de meia dúzia. Resolver o problema dos que tentaram arrombar a porta da Secretaria é fácil, basta apurar se são de fato professores e, sendo, em que circunstâncias isso ocorre; pelas fotos podem ser identificados, e responsabilizados. Portanto, é simples. No entanto o caso, expressando a intensidade dos conflitos em curso, ganha a representação ideológica do debate.

Mas a questão central e básica é outra e muito mais difícil, de longa duração; é a que precisamos enfrentar e discutir efetivamente. Até porque afeta não um momento de intemperança, mas o destino e o futuro de contingentes imensos de jovens, e das condições futuras da própria sociedade.

Uma correção de rumos nas formas dos debates que vem se estabelecendo é necessária. Urgente. A pergunta inicial desvia o foco da questão relevante, das políticas públicas nessas questões absolutamente essenciais. Eu havia partilhado o incômodo com a foto, e ainda partilho, embora saiba que ela desloque a questão. No entanto, sua mera reprodução instrumentalizando o campo político é apenas tendenciosa e instrumental, de efeito, típico dos alinhamentos passionais que vivem de acontecimentos assim. Não lhes convém tocar nem ponderar as questões relevantes, as reais responsabilidades. Estamos, o que está se tornando costume, reproduzindo esse campo paupérrimo que desde as eleições do ano passado se estabeleceu, muito contra educativo, em que dois dos principais partidos brasileiros (PT e PSDB) abdicaram de suas responsabilidades públicas e comprometem a vida nacional. Temos que atentar para isso.

É urgente mudar esse tipo de prática e pensar nas reais questões e seu enfrentamento, parar de comprometer e anular a política como campo de debates e decisão, tornando-a uma ridícula e inconsistente disputa pelo poder a qualquer preço. Esse comportamento superficial se dissemina a partir de lideranças político-partidárias e de grupos de poder menos visíveis, instrumentaliza as pessoas e o campo das opiniões, e está comprometendo a vida nacional, o enfrentamento dos graves problemas, a construção da democracia.

Uma segunda foto circulou na mesma ocasião, embora sem a evidência da primeira página.

No decorrer do debate aberto a partir desta segunda imagem, o comentário do mesmo conhecido foi:

Euler Sandeville- esta foto me passa a impressão da PM (Choque) cumprindo sua tarefa de "preservar a Lei e a Ordem" e garantir o patrimônio público e a integridade física dos que trabalham no prédio. E de uma forma aparentemente adequada. Qual a sua "leitura"?”

O que me sugeriu as seguintes considerações:

Entender essa imagem pressupõe correlacionar com algo mais do que o que de imediato se reproduz, que ainda que pudesse ser lido como sugere o meu conhecido, mais do que isso, o que fica claro de imediato, é a correlação de forças brutalmente desigual e violenta. Vejamos o que mais essa foto pode indicar:

1. professores (tudo indica) enfrentando o desconforto de estarem nessa situação, possivelmente o medo, procurando manter uma posição de normalidade e decisão, procurando demonstrar uma certa irreverência em alguns casos, indiferença em outros
2. a polícia (Tropa de Choque, como mencionou) cumprindo suas ordens recebidas independente de qualquer contexto de um comando que não se coloca como mediador e, nesse momento, em ordem e segundo o direito, embora para o civil passe uma atitude ameaçadora, como indica a posição dos policiais.
3. o prédio que representa a educação no Estado, e isso historicamente, selado, fechado, aos professores,
4. um impasse anunciado pela situação agregando o que está além da foto, pelo tempo dos problemas (eu não me refiro apenas às rodadas de não-negociação, mas a situação do ensino em toda a sua extensão),
5. um corpo de segurança treinado e equipado para enfrentar com violência situações de conflito político e simbólico,aqui é posicionado diante de civis (não bandidos) desarmados em em ordem,
6. o espaço público da cidade como palco das profundas contradições e violências sociais que enfrentamos
7. um prédio que representa uma política educacional na primeira república, quando com todos os problemas uma elite procurava princípios de universalização da educação,
8. distinguindo-se do que também não está na foto para além dessa área central que está na foto, de escolas em bairros extremamente pauperizados com precárias condições de funcionamento e trabalho (significa ensino e aprendizagem) e muitas vezes sem políticas educacionais adequadas ao contexto em que se inserem reverberando outras contradições, comprometendo o futuro de uma enormidade de jovens que serão privados de seu potencial, e o país igualmente. Esta condição pode ser comprovada por diversas outras imagens, de natureza técnica no caso das cartografias ou de registros ilustrativos no caso das panorâmicas, que mostram uma coroa de precarização e pobreza, que é confirmada por todos os indicadores urbanísticos e sociais da cidade, inclusive pela outra imagem que postei aqui, do mapa da dengue (Confira lá), publicado no mesmo jornal também hoje,
9. um certo preconceito (não está explicitamente na foto) com a pobreza, numa sociedade que hipervaloriza o consumo e a violência, que ao lado de outros fatores mais óbvios pode estar na base da recusa de se ouvir esses professores e enfrentar essas questões, gerando imagens como essa que postei,
0. não está e está na foto, a precarização e desarticulação das políticas públicas essenciais, inclusive entre níveis de governo e nesse caso, especificamente no governo estadual

A foto, segundo sabemos pelas notícias a que a vincula, é um protesto contra as condições de trabalho e remuneração do professor. De fato, o salário do professor é inadequado para valorização da categoria: "Defender um teto de R$ 2.415,89 por 40 horas semanais não é ideológico? Um oficial pedreiro (sem desmerecer o ofício), ganhava mais que isto em 2013", (o Globo).

Com essa mentalidade, responsabilizando pela ineficiência política e social aquele que está à frente do problema, buscando soluções em meio a uma conhecida precariedade e risco, qual o horizonte que se desenha para os brasileiros?

      








^ retornar ao início da página


uma proposta de Euler Sandeville Jr.


leia em "sobre" a Licença de Uso ↑ do material deste sítio
cite o conteúdo que utilizar deste sítio conforme indicado em cada artigo ou veja aqui modelo ↑ geral
utilizamos na edição deste sítio software livre
Entre em contado conosco ↑