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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


“BLACK BLOCS” EM SERVIÇO. PARA QUEM?
Euler Sandeville, 30/04/2015

Faz muito tempo que me incomoda a ação dos "black blocs". Já me manifestei sobre isso em outros momentos, mas não é de agora que sinto a necessidade de expressar um questionamento sobre a natureza dessas ações, não olhadas como normalmente são, como individuação, mas pelos resultados a que se prestam em um jogo de forças sociais mais amplo e de quem se beneficia com isso.

Ainda que entendendo que uma grande parte possa ser de pessoas que acreditam no que estão fazendo, nem por isso as ações se justificam. Mas a questão urgente é mais grave. A impressão que fica é que estão INTENCIONALMENTE detonando toda crítica democrática e livre ao governo em seus diversos níveis. Ou estão sendo usados para isso.

A chamada de anarquistas, que pode ter feito algum sentido nas manifestações na Europa e na virada do século, ainda que para mim toda forma de violência seja socialmente inaceitável, é um péssimo e mal intencionado emprego da palavra no caso brasileiro. Serve só de chamariz, e verniz, dotando de alguma aparência e sedução de dignidade (dotando de um sentido, não de um entendimento) uma ação que, na verdade, não passa por aí.

Tem, talvez, o efeito de atrair jovens que não confiam, e com muitas razões para isso, nos canais sociais, nas instituições sociais de expressão, debate e decisão. Mas, acabam assim como massa de manobra, a partir de uma insatisfação e revolta difusa e que talvez espelhe amarguras profundas, justificadas ou não. O resultado, entretanto, é profundamente contrário a qualquer construção anarquista ou Política, levando-os a ações que limitam, em consonância com o exército (contraditório, não?), a livre manifestação e a livre crítica.

Uma coisa é clara, há uma convergência, proposital ou não, entre eles e a polícia. Não individualmente claro, não é este o sentido que dou (embora não o descarte), mas têm sido o instrumento ideal para desencadear ações policiais violentas. Por exemplo, "black blocs" não foram às manifestações de 15 de março, mas sua ação em meio a outras manifestações pacíficas tem servido de desculpa, e desculpa esfarrapada, para ação violenta e indiscriminada da polícia. Ou seja, para desmobilizar e intimidar os movimentos independentes e descreditá-los diante da opinião pública. Essa disputa pelo espaço público é, mesmo que não só, uma operação midiática.

O fato de que não são presos, embora sob intensa exposição e mesmo contato, não se divulga uma investigação, e quem é detido não tem nada a ver, indica uma cortina de fumaça. Talvez uma parte do grupo não perceba, mas estão sendo instrumentalizados para ações que comprometem os movimentos democráticos e apartidários, de alguma inspiração libertária, desde 2013. E mais, para uma ação que confunde a opinião pública, radicaliza, desmobiliza e criminaliza manifestações legítimas, levando a um acirramento de ânimos que tende a uma irracionalidade que, me parece, é esperada, desejada. E que serve muito bem a uma ação indiscriminada, violenta e desmedida das forças de segurança contra civis desarmados e pacíficos.

Escrevi esperada, desejada. Mas por quem? Não apenas pelo governo e pelos partidos, mas na minha opinião por uma direita radical e golpista, e por uma esquerda igualmente radical e minoritária, corporativista. Ambos os grupos só podem ultrapassar a situação de isolamento a partir do confronto midiático e manipulado com o seu negativo. Ou seja, necessitam-se organicamente, instrumentalizando todos os meios para seus projetos minoritários. Não dispõem de outro modo de impor seus partidos, opiniões e ações, que de outro modo são recusados por uma imensa maioria de pessoas.

São, portanto, formas de traição dos grandes temas que instrumentalizam, E QUE NÃO NASCEM COM ELES, do mesmo modo que os Partidos estão traindo sua história e sua função social, lançando o país em uma cena moral e intelectual vergonhosa, triste, bipolar, arriscada luta pelo poder como mecanismo de controle privado de influência e riquezas. Não digo que os Partidos não tenham papel na vida pública, nem que não sejam necessários, nem que devam ser suprimidos, porque são necessários à democracia em seu estágio atual, mas por não cumprirem um papel público, reduzindo-o a jogos de influência, a manifestações humilhantes e a um “estado de eleição permanente” que integra uma imensa negociata, comprometem grave e irreparavelmente a compreensão e o exercício de seu papel na gestão pública.

Voltemos ao significado da violência que se realiza no meio de movimentos que, em sua maioria, exceto pelo fervor do momento e de uns poucos, não presam nem visam a violência. A presença marcante de pequenos grupos cuja motivação é depredar serviu de pretexto a ações militares, sobretudo quando as ruas incorporaram uma bandeira de questões sociais mais amplas, incomodando os Partidos em 2013. Serviram, portanto, para desmobilizá-los, ampliando o vácuo na construção de novas formas de debate nacional e de participação.

Mas observe, a repressão militar violenta veio antes dos "black blocs", por determinação do Estado, e o que a corporação faz é cumprir ordens, com raras e honrosas exceções quando submetem as ordens ao bom senso e ao direito. Pois toda ordem pública, e ação pública, deveria estar na dimensão do direito, e todos sabem que o direito não é a literalidade autoritária, mas o discernimento, de onde a palavra juízo, tão reduzida à punição e ao “cumpra-se” na mentalidade brasileira. A violência, naquele primeiro momento do Governo do Estado só não prosperou quando reverberou muito mal na sociedade como um todo.

Vimos isso nos protestos que foram silenciados na copa, e em muitos outros. Agora, o governador do Paraná, nos oferecendo uma das cenas mais vergonhosas para o país, invoca supostos agressores de uma polícia que, acuada, segundo o governador, fere cerca de duas centenas de pessoas. Francamente. Mas a cena é quase sempre a mesma, unindo Governo, seguranças e "black blocs" em uma mesma linha de ação. O caminho atual agrava as radicalidades em todos os grupos em confronto e coloca os fundamentalismos arbitrários e preconceituosos como um horizonte fácil.

Os "black blocs" são uma expressão absolutamente minoritária e gratuita, mas não me parece que sejam tão autônomos assim, na medida em que servem a ações violentas e arbitrárias do governo e a discursos radicais e inconsequentes que os utilizam para desmobilizar a ação política independente. Certamente, não são toda a história, nem uma pequena parte dela. A ambiência social em que surgem não difere, lamentavelmente, daquilo que desencadeiam.

O caminho atual compromete e inviabiliza a manifestação pacífica e dissemina a violência, a revolta, a irracionalidade da bílis. Divide, por bandeiras simplistas e cores que pouco dizem senão da fragilidade da dimensão pública do debate. Comprometem o avanço em questões que são urgentes e vitais para a vida nacional, para o desenvolvimento social. Estabelecem a falta de legitimidade e a fragilidade histórica das instituições sociais, já bastante abaladas pela partidarização indiscriminada, voraz e pela corrupção. Claro que isso não são os "black blocs", mas estão, intencionalmente ou não, contribuindo para o silenciamento das divergências e colocando-se a serviço dos grupos a quem interessa a banalização das questões sociais, dos debates, e o controle do comportamento.

Volto a dizer, os fins não são diferentes dos meios, e a violência apenas trará mais violência e sectarismo, não construirá ferramentas de mudança em um espaço público digno. No entanto, seguindo esse caminho, as coisas irão piorar, a violência irá se disseminar a situações cada vez mais gratuitas, as polarizações primárias e o preconceito irão se exacerbar. Isso irá acontecer cada vez mais rapidamente, ao ponto de não só agravar esse antagonismo partidário e venal (porque é isso o que está acontecendo), mas TAMBÉM extravasar para as relações pessoais, entre desconhecidos ou vizinhos ou no espaço público, fora o silenciamento de toda divergência pela arbitrariedade em diversos níveis, do social ao pessoal. Todos cheios de razão, do ponto de vista de seu próprio desejo em frustração e expansão.

Uma pena neste momento da minha vida assistir a esse agravamento e tanto prazer na destruição, e nisso não me refiro apenas aos "black blocs", pois da violência não são os verdadeiros experts, são apenas um pequenino sintoma posto em evidência pela mídia e pelo governo ainda que sintam-se com razões para fazerem o que fazem. Grave ainda assim, pela ação violenta e por estarem servindo ao propósito de governos como esses que estão aí. Não revelam coragem de se engajar em mudanças efetivas porque as lutas são longas e difíceis, basta uma ação imediata e midiática, um evento que jogue holofotes na tristeza e frustração que sentem. Refletem apenas uma condição social e um momento sombrio da sociedade, não só brasileira.

Estou dizendo que a responsabilidade desses males é dos “Black blocs”? Claro que não. São um pequeno sintoma de um processo muito maior, no qual, paradoxalmente, colocando-se marginais (periféricos ao processo), e sendo, acabam mostrando todo um caminho que se desenha pela antítese do que imaginam ser. Não só isso, querendo ou não, contribuem para desmontar possibilidades de manifestação política que poderão fazer falta.

Se não houver uma consciência coletiva diferente, os resultados chegarão a ser cada vez mais trágicos, direitos serão silenciados, retrocessos imensos ocorrerão, e muito tempo levará para se superar a condição atual. Mas há quem ganhará com isso, muito. Sem instrumentos adequados, as situações por vir não terão como ser enfrentadas, e a condição da água e da dengue são uma amostra de como precisamos ter canais de superação, não de destruição, pois o sofrimento e a injustiça poderão aumentar muito. Há quem conte com isso. E nesse momento, a sociedade, drenada pela partidarização de tudo e treinada para a dicotomia por décadas, mostra total imaturidade para discutir, enfrentar e superar as questões vitais que estão em cheque.

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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