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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


A FALTA DE EDUCAÇÃO DO BRASIL
Euler Sandeville Jr., 29/04/15

Hoje saiu a sedutora notícia de que a USP está no ranking da Quacquarelli Symonds entre as 100 melhores Universidades do do mundo em 29 de 36 áreas [1]. Os cursos da FAU, Arquitetura e Design, ficam colocados entre os 33 e 34 melhores cursos do mundo, respectivamente. De um lado, isso é bom, mostra o esforço realizado, mesmo em condições frequentemente adversas. Ou seja, o Estado e o País contam com uma instituição dessa expressão, e sucateiam, não investem, não criam condições mais favoráveis. Como de resto em toda educação.

Mas em que se baseia esse ranking? Na aceitação dos egressos pelo mercado,índices de citações de pesquisas, além de estudos de reputação entre empregadores e acadêmicos. O que faz pensar que o sistema de avaliação internacional também precisa considerar um leque mais amplo de necessidades sociais. E nós, não dependermos tanto desses rankings.

Mas uma boa notícia nem sempre conta toda a história.

Antes de qualquer boa notícia, comecemos com uma imagem que conta muito. Como veremos, uma boa notícia emerge isolada entre uma imensa quantidade de notícias preocupantes.

Figura: http://educacao.estadao.com.br/blogs/paulo-saldana/wp-content/uploads/sites/85/2015/03/anhanguera_propaganda.jpg

Na mesma página do Estadão hoje na qual vemos o ranking da USP vem a má notícia: “Estado cancela convênio de alfabetização. SP acaba com programa em parceria com ONGs que beneficiava 15 mil pessoas com mais de 15 anos; queda de matrículas seria motivo” [2]

E ainda hoje, na seção opinião, Alexandre Schneider, ex-secretário de educação de SP (2006-11), próximo a Serra e Kassab, que segundo Alckimin “É um bom menino, com forte vocação política”, observa alguns dados importantes, que vale considerar em sua suave crítica ao governo federal, nas quais me parece acertado o tema colocado em discussão.

Alckmin parece ignorar esses argumentos, pois aparentemente o governador vê os professores da mesma forma que as empresas de educação: um custo, quando não um estorvo (daí o gosto por substituí-los por padronizações infinitas de conteúdos e por sistemas digitais e por entraves burocráticos sem fim, que nada têm a ver com a docência e são impostos aos professores, sobrecarregando-os inclusive em horários além aula). Claro, como o ex-secretário entende que o desastre é uma responsabilidade partilhada, propõe um pacto federativo, o que me parece no contexto atual da educação ser entendido pelos gestores institucionais como um fluxo de caixa.

Precisamos urgentemente discutir, coletivamente, o ensino no país, no estado e no município. Não é uma questão de currículo, muito menos de norma, mas de práticas, de políticas, de visão. É urgente valorizar professores em todos os níveis, proporcionar formação, melhorar as ambiências de ensino, trabalhar junto cooperativa e solidariamente, rever o papel e operação das escolas, ampliar o acesso ao conhecimento e à capacidade de sua produção, olhar o estreitamento corporativo a que são submetidos (e acostumam-se) professores e instituições, entender cada escola no contexto em que se insere e não nos maravilhosos planos de educação que sucumbem por mérito próprio e do sistema de gestão escolar, e por aí vai.

Mas vejamos os dados, graves, da educação no país. Se o Estado de São Paulo, com todo seu desenvolvimento, encontra-se como está, o tema da educação precisa passar por uma discussão social muito mais ampla e inclusiva. [3]

“O FIES representa hoje a segunda maior despesa do Ministério da Educação (MEC), consumindo 15% do orçamento da pasta, mais do que o governo federal repassa ao Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico (Fundeb). ”

“Um quinto dos jovens entre 15 e 17 anos está fora da escola. Apenas metade dos jovens entre 17 e 19 anos com o ensino fundamental completo consegue concluir o ensino médio. Do que o concluem, só 9% aprendem o esperado em Matemática.”

.

“Vale lembrar: o Brasil, segundo o Plano Nacional de Educação, pretende formar 30% dos jovens nas universidades até o ano de 2024. O que faremos com os outros 70%?”

As dez maiores instituições de ensino universitário no pais4, do ponto de vista do número de matrícula, em 2007, são de longe empresas do setor, com 564.693 matriculados em sete empresas, sendo 262.457 na Universidade Paulista e na Universidade Estácio de Sá. As três públicas, com 114.070 alunos matriculados, são a USP. a UNESP e a UFPA, sendo a quase totalidade, oito, na região sudeste.

Em 2013 a fusão das empresas Kroton e Anhanguera poderia criar a maior instituição privada de ensino do mundo. A operação, de R$ 12 bilhões, pode fazer com que o novo grupo seja responsável pela formação de cerca de um milhão de alunos. Na matéria vinculada, ficamos sabendo que

Entre 2007 e 2012, as aquisições feitas pelas duas empresas geraram em torno de R$ 7 bilhões e foram equivalentes a 55,5% do total de aquisições do setor. A Anhanguera adquiriu 32 instituições e a Kroton 19 instituições5.

Crescimento aliás muito dependente do FIES, como se vê na página da Anhanguera6, oferecendo aos candidatos uma mensalidade de R$17,00, pagando o financiamento após 18 meses da conclusão do curso a taxa reduzida (3,4% ao ano).

Figura: https://www.anhanguera.com/bolsas-e-credito-estudantil/fies.php

Segundo notícia do Estadão, em site a empresa informava: “No site, a empresa informava que “a taxa de juros é tão baixa que vale a pena contratar, mesmo que você tenha dinheiro pra pagar o curso.” O site foi retirado do ar.

O texto ainda informava que a taxa de juros do financiamento é menor que a renda da poupança e arrematava:

“Se você colocar na poupança o dinheiro que iria usar para pagar a faculdade, você acaba tendo lucro. Não estou falando que o Fies é uma fonte de lucro, não é isso. Foi só um jeito de mostrar que, com o Fies, você acaba pagando muito pouco por algo que vai fazer muito pela sua carreira e pelo seu futuro.” [7]

Aliás, a imagem é muito boa, e a escolhemos para abrir este artigo. Ainda segundo a mesma matéria:

“A Kroton Anhanguera recebeu de Fies no ano passado mais de R$ 2 bilhões – sendo a empresa no País a mais receber pagamentos do governo federal em 2014. Uma das mantenedoras controladas por ela, a Anhanguera Educacional Ltda., tinha em 2013 mais de 80 mil alunos com Fies. O crescimento de 2010 para cá no número de contratos foi de 2.000%, mas o número total de alunos não subiu – eram 230 mil em 2010 e continuam 230 mil em 2013.”

Deu para entender, não é?




fontes mencionadas

[1] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,usp-fica-entre-as-100-melhores-do-mundo-em-29-de-36-areas,1677892

[2] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,estado-de-sao-paulo-cancela-convenio-de-alfabetizacao,1677879

[3] http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,educacao-basica-uma-nova-oportunidade-imp-,1678001

[4] http://educacao.uol.com.br/ultnot/2009/02/03/ult105u7549.jhtm

[5] http://www.acaoeducativa.org.br/index.php/educacao/47-observatorio-da-educacao/10004823-fusao-das-empresas-kroton-e-anhanguera-pode-criar-maior-instituicao-privada-de-ensino-do-mundo

[6] https://www.anhanguera.com/bolsas-e-credito-estudantil/fies.php

[7] https://www.anhanguera.com/bolsas-e-credito-estudantil/fies.php

      








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