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foto: Euler Sandeville Jr., paisagem de luz e água, março de 2018



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desenho de Euler Sandeville Jr., Ubatuba, 2007.


Nota: a tradução habitualmente utilizada neste sítio é a de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada (ARA), algumas vezes a João Ferreira de Almeida Atualizada (JFA). Quando utilizar outra tradução neste sítio isso será indicado através da abreviatura: KJA (King James Atualizada), FL (Frederico Lourenço), BJ (Bíblia de Jerusalém).


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II. 03. A INJUSTIÇA CORRÓI A ALMA?


Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” (Habacuque 2.4)

Na mensagem “II.2. O que é a injustiça?” vimos a inconformidade do profeta Habacuque com a injustiça no meio do povo que deveria adorar a Deus:

Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás? ou gritarei a ti: Violência! e não salvarás? Por que razão me fazes ver a iniquidade, e a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há também contendas, e o litígio é suscitado. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, de sorte que a justiça é pervertida. (Habacuque 2.2-3)

O profeta contemplava a injustiça, não entendia sua razão nem porque percebia a dolorosa e brutal injustiça de seu tempo. A beleza deste livro profético é que, ele todo, é um momento de Habacuque indagando a Deus sobre as causas da injustiça e se Deus não a percebe. É, portanto, um momento de suspensão no árduo trabalho do profeta em que nos é revelada a sua intimidade e oração e de como se volta a Deus em sua justa angústia.

Esse pequeno livro é formado por três orações encadeadas. A primeira lemos no capítulo 1, versos 1 a 4, transcritos acima. Nela, o profeta questiona a Deus sobre a injustiça em seu próprio povo, como lemos. A resposta de Deus lhe é dada nos versos 5 a 11. Infelizmente, anuncia coisas piores que acontecerão pelo acúmulo da injustiça. Não bastasse a injustiça no próprio seio do povo judeu, seus pecados estão abrindo as portas para males ainda maiores que viriam.

Então ele coloca-se novamente em oração, nos versos 12 até o final do capítulo, mais uma vez questionando a Deus diante da injustiça. Ainda não tem uma visão plena de Deus, a quem responsabiliza pela situação humana, como demonstra a sua queixa. No primeiro verso do capítulo 2 se coloca aguardando a resposta e a ação de Deus e em postura de cobrança e expectativa: “sobre a minha torre de vigia me colocarei e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que me dirá, e o que eu responderei no tocante, a minha queixa” (2.1).

Novamente a resposta vem e agora o profeta fica sabendo que isso perdurará por causa da soberba humana. Certamente, não é o que desejava nem o que esperava ouvir, mas diante da revelação de Deus o profeta pronuncia então cinco “Ais” (versos 9 até o fim do capítulo 2) que atingirão as pessoas e povos que promovem a injustiça. Habacuque vivencia aqui o entendimento da ação de Deus, mas sabe que o mal que vê não será afastado rapidamente do povo como queria.

Em tudo isso vemos a humanidade do profeta, não um homem idealizado, mas uma pessoa verdadeira diante de Deus, a quem busca, mas também a quem está disposto a ouvir, como fica claro na indagação-escuta-nova formulação, até que chega, apenas no final do capítulo 3, a um entendimento e libertação.

Habacuque, em meio ao sofrimento que essas visões lhe causam, volta-se novamente ao Senhor em uma terceira oração, que encontramos no capítulo 3 do livro. Nesta, já não pergunta nada a Deus. A oração pode ser compreendida em duas partes, sendo que a primeira parte está nos versos 2 até o 16. Começa com uma compreensão da santidade de Deus, que lhe suscita adoração mas também um temor que sente diante do Criador (versos 2 a 7). É tomado por assombro ao compreender a santidade de Deus e a fragilidade e desvio humano. Isso faz com que, desde o início, agora clame para que Deus se lembre de sua misericórdia e avive novamente o povo:

Eu ouvi, Senhor, a tua fama, e temi; aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos; faze que ela seja conhecida no meio dos anos; na ira lembra-te da misericórdia. (3.2)

O que salta ainda aos olhos do profeta em sua oração é a santidade de Deus diante da brutal injustiça humana. Compreende que virá uma libertação futura para o povo, mas esta ainda é terrível. Deus não lhe traz ainda conforto, mas, de fato, assombro:

Tu sais para o socorro do teu povo, para salvamento dos teus ungidos. Tu despedaças a cabeça da casa do ímpio, descobrindo-lhe de todo os fundamentos. (selá) Traspassas a cabeça dos seus guerreiros com as suas próprias lanças; eles me acometem como turbilhão para me espalharem; alegram-se, como se estivessem para devorar o pobre em segredo. Tu com os teus cavalos marchas pelo mar, pelo montão de grandes águas (3.13-15).

Aqui, ainda está vendo o mal diante da santidade de Deus e as consequências da justiça que aguarda. Ainda terá de perceber que não basta compreender a natureza e a extensão do mal. Entretanto, é diante dessa visão assombrosa de Deus que o profeta reconhece finalmente sua dor e sua indignação e se submete à Sua verdadeira grandeza, podendo então esperar o tempo de libertação que cabe a Deus e não ao homem.

Ouvi-o, e o meu íntimo se comoveu, à sua voz, tremeram os meus lábios; entrou a podridão nos meus ossos e os joelhos me vacilaram, pois, em silêncio, devo esperar o dia da angústia, que virá contra o povo que nos acomete (3.16).

À medida em que Habacuque ora, vemos que vai caminhando para uma compreensão mais íntima de Deus, até que seu coração volta-se de fato a Deus a fim de atravessar os momentos ainda mais terríveis que lhe foram revelados que viriam. É neste momento que essa resposta de fé ultrapassa a profunda amargura do que via e pela qual não se deve deixar enredar aquele que busca a Deus. No começo do seu diálogo, o Senhor havia lhe revelado a diferença entre o injusto e o justo. No primeiro, sua alma não é reta nele, não há temor de Deus nem respeito ao próximo; o que o define é a própria soberba. Mas o que diferencia o segundo, o justo, é que este anda conforme a sua fé.

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” (2.4)

Este é um dos versos importantes das Escrituras, retomado na carta de Paulo aos romanos (Rm 1.17) e na carta aos hebreus (Hb 10.38). É esta confiança em Deus que vemos brotar em Habacuque, em seu diálogo com Ele. O livro termina de uma forma muito bonita diante da adversidade em que se encontra e pela qual não lhe cabe responsabilidade:

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (Habacuque 3.17-19)

Questionando a Deus sobre a injustiça de seu tempo e da nação, Habacuque compreende primeiro que sua extensão é ainda pior do que de início percebera, para então clamar não apenas por justiça, mas por misericórdia para aquele povo. Mas é apenas quando reconhece a própria dor que percebe que ainda vê o Criador a partir da injustiça humana. É apenas quando se rende de fato à Sua grandeza e não apenas ao medo diante de saber sobre Sua grandeza e santidade, é que experimenta a confiança em Deus (3.16-19). Como diz João: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.” (1 Jo 4.18).

O que podemos aprender com esse percurso do profeta Habacuque? Nesse tempo, no qual temos de conviver com a injustiça sob muitas formas, não podemos, como cristãos, deixar de nos inquietarmos com isso. A primeira coisa, em nossa intimidade, é não nos conformarmos a ela, limparmos nosso coração e não fazermos parte dela. É uma resposta de fé, não de que tudo vá ficar bem porque assim desejamos, pois há uma dura realidade na qual vivemos e na qual não podemos ignorar a injustiça, que de fato está ali. Também não tomamos a justiça em nossas mãos, como se fôramos paladinos afoitos. Ao contrário, como Habacuque vivenciou, reconhecemos nossa fragilidade e nos voltamos a Deus em oração. É nesse momento que, como Habacuque, reconhecemos que somos peregrinos, que não somos levados pela injustiça nem a ela nos conformamos, mas também não nos permitimos ser conduzidos pela amargura e pela ira que suscita.

O livro de Habacuque não nos fala de como devemos agir no mundo que nos cerca, mas nos mostra que, antes de mais nada, devemos nos voltar a Deus e encontrar a paz Nele. Só então estaremos prontos e firmes para caminhar em um ambiente adverso sem sermos levados ou conduzidos por esse ambiente e sua maldade, nem agirmos com base no sofrimento que causa em todos os que amam a justiça e se indignam com o mal. Se não o fizermos, se não tivermos antes essa busca em oração e diálogo com Deus, seremos conduzidos por esses sentimentos e corremos o risco de agir segundo os termos daquilo que criticamos.

Qual então a resposta para a pergunta inicial: A injustiça corrói a alma? Sim, corrói. E pode aprisioná-lo nela, se você se permitir ser conduzido por ela, se permitir que ela lhe imponha os termos e você se esqueça ou deixe de ver a Deus e de caminhar pela fé. A sabedoria antiga é interessante, ela não nos diz de saber sobre a fé, mas de caminhar, de viver segundo a fé.

A beleza desse livro está em nos mostrar toda a angústia e humanidade do profeta, sua conversa sincera com Deus na qual, ao receber as respostas que buscava, vai superando a visão inicial que tinha. Tal como Jó em sua aflição, chega à compreensão de que o que difere o caminho do perverso do caminho do justo não é sua indignação nem sua justiça própria, mas a confiança e a intimidade com Deus. Compare os versos iniciais e finais:

Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás? ou gritarei a ti: Violência! e não salvarás? Por que razão me fazes ver a iniquidade, e a opressão? (1.2,3)

ou

Tu que és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e que não podes contemplar a perversidade, por que olhas pára os que procedem aleivosamente, e te calas enquanto o ímpio devora aquele que e mais justo do que ele. (1.13)

com

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (3.16-19)

Habacuque já não se vê governado pela queixa, mas sem deixar de reconhecer a contraditória realidade, apenas nesse momento é que vemos no livro a alegria, até então ausente da experiência do profeta. Não se trata de uma fuga (como seria para aqueles que têm um deus hipotético e improvável), nem de mera evasão, porque permanece ciente e inconformado com a injustiça e a realidade, mas vivencia a experiência com o Deus vivo. Se não experimentamos esse crescimento na busca de Deus, a própria indignação nos faz não perceber nosso papel e leva a nos colocarmos em oposição a Deus e sua misericórdia (como veremos no profeta Jonas). O profeta, como cada um de nós, não está pronto, nem é fácil o seu caminho, mas é na intimidade da oração que irá compreender os caminhos de Deus e ser transformado, para só então colocar-se em condição de lidar com a situação sem se deixar absorver por ela.

Euler Sandeville Jr., 20 de agosto/30 de setembro de 2018

      








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