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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


RESPEITO À VIDA
um país tem que ter uma expectativa digna e duradoura do que, e de como, quer ser
Euler Sandeville Jr., 24 de janeiro de 2019

Tenho estado longe das redes sociais, produzindo coisas do meu trabalho e de reflexões importantes, sobre a fé, a religião 1 nos dias atuais, a condição contemporânea e, pensando com Habermas, a fragilidade da secularização de todas as esferas da vida, diminuindo nesse acuar do ambiente de fé as respostas que devemos ser capazes de dar 2 fundados não na última descoberta nem na última teoria nem no último desejo, mas nos valores ancestrais que têm a dizer sobre a vida, sua dimensão sagrada, e das implicações para uma sociedade das decisões que toma.

Claro, há a dimensão verdadeiramente demoníaca da barbárie da natureza humana profunda em seu destempero ávido na qual a religião tantas vezes é facilmente tragada e usada (também o são as ideologias políticas, as manipulações econômicas, as guerras e revoltas, as personalidades messiânicas ensimesmadas e tantas outras coisas). Mas não é disso que me ocupo, e sim da fé que nos transforma. A transformação é um processo difícil, exige coragem, tem seus recuos e fraquezas e uma contínua disposição de superar-se, que leva passo a passo ao crescimento e à superação. Qual de nós está pronto?

Mas, ao logar, li que Jean Willys teve que fugir do país para preservar a própria vida. Não votaria nele, pelo contrário, discordo de muitas coisas que ele diz e sobretudo do modo como diz, mas não é essa a base da democracia, as pessoas poderem expor questões e terem de se respeitar? No entanto, as notícias de uso da violência e ameaças parecem estar se tornando recorrentes, como aconteceu com o próprio presidente, juízes e outros deputados, ao lado de outras ainda mais frequentes de um contra o outro no cotidiano da sociedade, de intolerância, intransigência, violência contra a mulher, crianças, idosos e tantas injustiças e covardias que todas as semanas nos chegam.

Reconheço que o ambiente entre os deputados não me parece nada respeitoso, mas um deputado sobre quem não pesa qualquer acusação de corrupção ou de outro tipo que eu tenha notícia abandonar a legislatura por causa de ameaças de morte, e outros estão em situação semelhante ou foram mortos, em um contexto que o crime parece sem limites, isso fala de impunidade e barbárie. Se perdermos os limites ao invés de construí-los legitimamente juntos, sabendo que os consensos são difíceis ou até impossíveis, restará apenas a indiferença, a incerteza, o vazio, o arbitrário, a insegurança.

Ameaçar a vida das pessoas sobre quem não pesa nenhuma acusação é um crime bárbaro. Mas, e quando há acusação? Temos vários nessa condição agora. A resposta é simples, deveria ser resolvida nos termos da justiça, não da barbárie. Justiça que aliás é tardia em apurar os crimes dessa turma, mas que vem avançando nisso nesses anos. Porém, ao não avançar ou ao agir com dois pesos e medidas ou ainda ao adiar ou suspender longamente o juízo, traz descrédito, fragiliza as instituições e aumenta o crime e a violência.

Esta não é uma nota de desagravo ao Wyllis, porque que isso cabe agora à casa que foi ofendida. O Congresso e o governo.

Brasileiros, a violência fala pouco de indignação, ela fala mais de medo, impotência e abuso, covardia, medo de olhar nos olhos e medo e insegurança de se colocar. Mais, fala de uma visão tímida e acanhada do mundo, de uma covardia prepotente que prefere se esconder atrás da bravata e do muque do que arregaçar as mangas junto com os outros que precisam e ter coragem de ajudar.

A violência é uma porta fechada em um lugar escuro, que aberta leva a lugar nenhum senão à destruição dos valores que definem e preservam nossa humanidade. Na destruição do outro destruímos algo em nós mesmos e ficamos parecidos com o medo que destruímos, restando no olhar de quem pratica a violência não só a sombra do outro, mas um inexorável vazio cada vez mais vazio e sem razão. Saia desse caminho o quanto antes. Cada ato de violência é um mal que é feito três vezes, contra o outro, contra si gravando o outro dentro de si, e por ter decidido deixar mais uma vez escapar a oportunidade de construir a justiça, a verdade, a superação de nossos problemas pessoais e sociais.

Façamos uma conclamação à superação de nossos problemas, não ao impasse.

Ou alguém acha que nossas questões pessoais existem desvinculadas das sociais em que existimos, ou que podemos nos superar e caminhar vivendo em um ambiente de hostilidade e traição (porque quem usa a força mais rápido é traído e trairá). O que precisamos é de um ambiente de tranquilidade, que já imaginamos para este país, precisamos de solidariedade, amizade e apoio mútuo, precisamos do conselho sincero e da ajuda, precisamos sim de colocar nossas discordâncias e o direito de buscar valores verdadeiros, os mesmos valores que podem construir uma sociedade em que nos reconheçamos parte, sejamos felizes de estar, de confiar e nos reconhecermos parte ainda que haja contradições, que as belezas naturais em que construímos nossa sociedade expressem o respeito que temos (ou devemos ter) pela vida, pelo outro, por aquilo que, se destruímos, jamais poderemos reconstruir: a vida.







1 Como sempre, distinguo entre fé - a certeza das coisas invisíveis, a comunhão com e confiança no Deus Vivo, Eterno e Criador, em Cristo ressurrecto -, de a religião - um conjunto organizado de normas eclesiásticas, ritos, organização e institucionalização de símbolos muitas vezes substitutivos da fé, portanto, mais apensa às coisas visíveis a partir a referência ao invisível e transcendente.



2 Nesse trecho ousado, "...a fragilidade da secularização de todas as esferas da vida, diminuindo nesse acuar do ambiente de fé as respostas que devemos ser capazes de dar..." tive em mente Jürgen Habermas (2013, P. 14): "A crença cientificista em uma ciência que possa um dia não apenas complementar, mas substituir a autocompreensão pessoal por uma descrição objetivante, não é ciência, é má filosofia. Mesmo o senso comum esclarecido cientificamente não será privado por nenhuma ciência de, por exemplo, julgar como devemos lidar com a vida humana pré-pessoal sob descrições da biologia molecular que tornam possíveis as intervenções da engenharia genética." E: "Mas a procura por argumentos voltados à aceitabilidade universal só não levará a religião a ser injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade secular só não será privada de importantes recursos para a criação de sentido, caso o lado secular se mantenha sensível par a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluídos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser compreendido como uma tarefa cooperativa em seu se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro". (p. 15). HABERMAS, Jürgen. Fé e Saber. Trad. Fernando Costa Mattos. São Paulo: UNESP, 2013.
      








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