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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


UM NOVO ANO CARREGADO DE TANTOS OUTROS SE APROXIMA (aprendizado para 2018)
Euler Sandeville Jr.,
25 de novembro de 2017

O mundo não mudou, e não parece ter melhorado. 2018 se aproxima. Onde e como eu estava há 10 anos atrás? Encontrar pessoas desses tempos de transição que vivi ou que se entrelacem em meu caminhar presente por um pouco me faz conhecê-las em sua intimidade sensível e esse processo coloca-me face a face com minha transformação em processo, meu passado, minhas esperanças. Os olhos de alguém, o brilho da pele iluminada pelo sorriso ou pela tristeza, no fim, falam de todos nós. Estas fotos são de 10 anos atrás, e o que me dizem agora? Falam do que vivi, de coisas que fazem parte de mim, do que sou, mas não necessariamente me definem quando ponho em vista a existência já vivida em toda a sua extensão. Acho que literalmente olhava o impossível, de tão perto das fronteiras da consciência com as quais flertava transposições como quem contempla do penhasco a tormenta, que assombra plúmbea nossa contemplação da natureza imensa em que o corpo se torna ínfimo. Em parte era livre para vagar como a cascata, mas a cascata em seu delírio não percebe que sem a água que a invade é apenas pedras amontoadas esperando o motivo de sua erosão, de transformar-se em praia, em leito de rio, em formas esculpidas em um tempo muito, muito lento nesse ser hora as rochas do mundo, hora o fluxo das águas. Há pessoas que procuram a ordem, o comportamento, porque temem demais a desorganização, e porque tudo o que conhecem está protegido em uma ordem prestes a se dissolver, onde a transgressão é mudar de canal, usar uma sandália diferente, falar algo sem graça, denunciar um outro qualquer que seja desde que seja um outro ou olhar o mundo pela fechadura. Não podemos supor que quem seja assim seja livre. Não há quem não se compraza em suas prisões mesmo sem sabê-lo e que seja livre, senão no que para outros pareça prisão. Ao menos aos seus próprios olhos. Mas o que dizer de quando a condição incompreensível é o seu estado natural, que flui entre o que é profundo e o que é mundo, onde a ordem é apenas uma outra forma da desordem, onde a pulsão é como o fluxo da cachoeira da paixão que na embriaguez da dor das paixões perdidas e nos êxtases dos momentos de encontro se esvai como poesia e tintas sobre um quadro? Coloquei-me tantas vezes nos limites do compreensível. E quando você percebe que esse caminho se torna também uma prisão, quando a insanidade da consciência alterada começa a alterar seus atos e pensamentos, a redefinir o que você é? Quando todo o prazer parece estar em desfrutar o limite intocável e frágil da existência? Pode haver um momento em que você percebe que superar-se é sair de onde está para um outro lugar, em que a estética da noite possa ceder a uma nova estética do dia e da noite e o passado não seja só dor que já nem dói nem vai embora mas é como arte em desastre e desatino? Pode ainda tornar-se criação e reencontro com a pureza renovando o olhar já um pouco amortecido pela transposição de tantas praias tateadas no desconhecido ou nas rotas selvagens da cidade? Não se trata de não gostar do passado, de tornar-me estranho a mim mesmo na sucessão de imagens que o tempo transforma, muito pelo contrário. Fui feliz, ainda que com um tanto de infelicidade. Mas as respostas não satisfizeram, como um balbuciar diante de perguntas difíceis. O reencontro com a pureza que ainda esvai em cada gesto de pulsão encontra o próprio limite da existência e da coerência, dissolvendo-se nas frestas das possibilidades, gerando perdas das pessoas amadas, diluindo-se na memória em tranposição contínua de si. E se, no limite, a perda de controle já não é apenas escolha, porque a consciência, de tão extrema, já não discerne? É, então, ainda possível voltar? E voltar pleno de sensibilidade? Reconstruir? Reencontrar sentidos desfeitos, as convicções mais sagradas amortecidas na incapacidade e no medo de não ser capaz de seguir a Deus? Dado esse passo, novas questões se colocam. Que questão maior pode haver do que se estou aprendendo a amar? Aprendendo, no viver, no errar, no suplantar. O que me parecia paixão em sua pureza intensa ainda não sabia a necessidade do tempo e da calma, do amadurecimento, da lenta passagem da existência sob a luz das estrelas. Passagem que, dia a dia, ao longo do ano, vai deixando uma trilha que a alma sensível descobre que não é jamais a mesma; mas não se define na novidade, e sim na calma e na paz: cair de joelhos diante de Deus. Experiência extraordinária. Entregar-me a tudo o que no mais íntimo e profundo creio e abrir sempre os olhos em um lugar que se renova pelo Seu toque e Seu amor. Deixar esse peso sedutor que me devora na desorganização do tatear os desejos para reencontrar a luz intensa de um caminho novo que se desvela aos poucos entre as sombras do devir, que aos passos que dou se ilumina e mostra a intuição do caminho a percorrer. Percorrendo. Superar-me, reencontrar-me? Sou feliz? Sim, sou a maior parte do tempo, embora saiba que não estou pronto, e me sinta ainda pouco preparado, por que, quem, de fato, está? A questão é, estou aprendendo a amar? É necessário e possível abrir os olhos com uma luz nova e intensa, ainda que desconhecida, em paz. Lutas todos teremos, momentos de inquietação. Alguns mais. Fazer o quê? Mas quando há paz, ela os atravessa, quando se ouve o sussurro de Deus no vento de sua Palavra a alma encontra o caminho. Um dia vencemos, outro esquecemos, outro simplesmente vivemos e nos confrontamos um pouco pelas possibilidades de escolher e um pouco pelos riscos de não fazê-lo nesse caminho de aprendizagem nova, ainda não trilhada. As mudanças e curas relevantes não são exteriores. Porque a febre também não é exterior. A alma sedenta de Deus será saciada, não em um futuro longínquo, mas no achegar-se à Sua doce voz. Amar adquire novo sentido, nova dimensão, natural como a essência da vida, querendo brotar da alma e atravessar seus conflitos. Cada vez que o amar é estrangulado pela mágoa, pelo orgulho, pela arrogância, é como se voltássemos as costas para Deus, por vezes falando d'Ele. Estou aprendendo seu significado, sua extensão, e seu significado me renova e me ensina a prosseguir, me desafia a uma nova liberdade, a um novo respirar. Sim, há lutas, lutas do dia a dia, lutas íntimas até muito intensas e não há em nós a possibilidade da perfeição ou um seguro para a isenção do erro, mas é apenas diante dessas possibilidades que podemos aprender a vencer, e aprender o peso de quando abraçamos o erro. Por vezes isso assusta. Mas do contrário não haveria o que aprender e nos enganaríamos sobre quem de fato somos e sobre o caminho no qual devemos aprender a definir o que somos. Para Deus em Cristo.

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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