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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


ACADÊMICO FAST FOOD.
Euler Sandeville Jr.
21 de outubro de 2017

Na Folha de hoje temos uma entrevista com o médico italiano Marco Bobbio, que lançou um livro Troppa Medicina (medicina demais, em tradução livre; não disponível no Brasil). A manchete é “Medicina hoje se parece com ‘fast food’”.

O texto é interessante e oportuno, e deve ser lido. De fato, a ideia de fast food [1] não dá conta do argumento bastante relevante do médico italiano. Há no seu argumento dois lados a serem vistos, o da prática, do ponto de vista da qualidade, e o do sistema, do ponto de vista da organização empresarial. Some-se ao sistema fast food da saúde pública e do cartel de operadoras de saúde o resultado social que se desenha: resta torcer para não desfalecer na fila enquanto retroalimenta o sistema.

[1] “fast-food.substantivo masculino
1. gênero de comida (ger. sanduíches, batatas fritas etc.), preparada e servida com rapidez; comida de lanchonetes e similares.
2. p.met. estabelecimento que serve esse tipo de comida.”

Em https://www.significados.com.br/fast-food/:
Fast-food significa “comida rápida” em inglês. É um tipo de comida, geralmente lanches, para pessoas que não dispõem de muito tempo para fazer as suas refeições, e optam por alimentos fast-food, pois são preparados e servidos rapidamente. Fast-food ou comida pronta é o nome dado ao consumo de refeições que podem ser preparadas e servidas em um intervalo pequeno de tempo. Alguns exemplos de comidas de fast-food são sanduíches, pizzas, batatas fritas, pastéis e etc. Os alimentos fast-food são considerados altamente calóricos, em sua grande maioria. Uma forma de fast-food também são os alimentos servidos nas ruas (cachorro quente, por exemplo), por vendedores ambulantes.”

Esses dias estava pensando algo assim. Uma pessoa havia me comentado que um artigo havia sido aprovado para um evento científico. Isso implicaria em pagar a inscrição no referido evento, a passagem, deslocamento e hospedagem. Se não tiver que pagar a tradução para uma língua universal. Para o acadêmico esta não é uma opção. Ele é avaliado por isso. Ou seja, nesse caso ele paga para trabalhar e para continuar trabalhando, o custo institucional é repassado para ele, que portanto paga para estar no sistema, o qual, assim, vive da necessidade construída em exacerbação dessa projeção quase midiática e certamente produtivista do “novo intelectual”.

Algumas revistas internacionais cobram para publicar, verbas de financiamento subsidiam as publicações que depois são vendidas e algumas revistas são vendidas em pacotes fechados mediados por grandes empresas às grandes instituições acadêmicas. O ciclo perfeito se completa no evento, nome muito apropriado para a moderna área científica e educacional. Empresas organizam-se ou reorientam-se para suprir as várias etapas e interfaces desse mercado de serviços (acadêmico) e para dar suporte ao registro da produção em ranqueadores nacionais e internacionais, tanto para instituições de projeção quanto para os pesquisadores que possam e queiram pagar. Ou podem fazê-lo nas férias e horas vagas que porventura tenham, vários dias preenchendo formulários e formulários dos quais depende, em última análise, sua produção...

O próprio sistema institucional nacional e internacional exige isso e no ranqueamento da inteligência, digo da produção, digo, seja do que quer que isso seja, a pontuação de um artigo em evento é maior do que a de um livro. Só não é maior do que uma disciplina ministrada ancorada em pesquisa porque, simplesmente, essas não pontuam nada, embora sejam um empreendimento social e intelectual na maioria das vezes muito mais relevante. A própria noção de pontuação já é uma distorção que está limitando e condicionando a linguagem.

Quem viu um, viu um monte. Um artigo se parece com outro em sua estrutura e desenvolvimento, na forma de comunicação, de pensar, expressar, apresentar.

Da observação do mundo vejo que um sistema comercial de sucesso deva ser complexo para limitar as organizações capazes de disputá-lo e ao mesmo tempo gerenciável a partir de uma normatização rigorosa de procedimentos que o tornem o mais imediato possível, flexíveis quando necessárias, preferencialmente contendo nichos distintos dando uma sensação de diversidade a partir de uma estrutura produtiva controlada e mediada por seus inputs e out-puts, conforme as possibilidades dos públicos alvo. Além disso, é desejável seu produto ser reprodutível ou consumível em larga escala, atender a necessidades geradas na sua própria produção em diálogo com as necessidades dos consumidores, etc.

Para ser aceito um artigo acadêmico exige-se uma pesquisa que possa ser traduzida como segue (a verificação e controle): objetivo, problema, material e métodos, análise, discussão, conclusão, necessariamente temperados com pelo menos de 6 a 10 citações de referências que tratem de autores que falaram sobre como estudar aquilo e outras tantas de autores que estudaram aquilo, de preferência muitos deles em artigos semelhantes, seguido de uma descrição padronizada do objeto em causa e então a conclusão, geralmente boiando por sua densidade nessa estrutura.

Como a linguagem é o próprio conhecimento do mundo, está se reduzindo e padronizando a capacidade intelectiva e expressiva. De modo que o novo intelectual é, de certo modo, guardadas as proporções da metáfora, semelhante a um jockey [2], que corre para a promoção de um cartel de investidores e para divertimento de uma multidão hiperestimulada [3] de burocratas que ocupam as arquibancadas vivendo do vício intenso das apostas, mobilizando assim grandes recursos e fortes e genuínas emoções. O jockey [4] é um atleta competindo por boa classificação; a pergunta é, o que ocorre quando começa a servir de metáfora para o docente?

[2] Definição de Jockey segundo o Cambridge Dictionary disponível on line (http://dictionary.cambridge.org/dictionary/english/jockey) e os instrutivos exemplos que traz:
1. noum a person whose job is riding horses in races: a champion jockey
2. mainly US informal a person whose job involves the use of a particular device, vehicle, object, etc., or who is very interested in a particular thing: a desk jockey, a computer jockey
3. verb to attempt to get power or get into a better position than other people using any methods you can: Since the death of the president, opposition parties and the army have been jockeying for power. As the singer came on stage, the photographers jockeyed for position at the front of the hall.


Vale também ver o tópico na Wikipedia espanhola (https://es.wikipedia.org/wiki/Jockey): “La palabra jockey fue originalmente un diminutivo del nombre propio escocés Jack, por lo que podría traducirse como Juancito o Juanito. También se la utiliza genéricamente para "muchacho o compañero", por lo menos desde la década de 1520. Desde la década de 1660 se la utilizó para designar a la "persona que monta a caballo en las carreras", o sea al jinete. En el argot americano del inglés, se la utiliza como un diminutivo de jock ("hombre atlético"). (apud Online Etymology Dictionary).”

[3] “A síndrome do hiperestímulo ovariano (SHO, ou OHSS na sigla em inglês) acontece quando os ovários têm uma reação exagerada a drogas usadas em tratamentos de fertilidade, em especial na reprodução assistida. Os ovários podem inchar muito rápido, aumentando várias vezes de tamanho, e pode haver acúmulo de líquido no abdome”. Disponível em https://brasil.babycenter.com/a25007223/s%C3%ADndrome-do-hiperest%C3%ADmulo-ovariano#ixzz4w8UBeHP1

[4] Suas características - a do jockey - são ainda mais interessantes e ilustrativas, se empregadas como metáforas: “El jockey promedio tiene una construcción ligera pero atlética y un peso que, por lo general, oscila entre 49 y 54 kg.3​ De acuerdo a los reglamentos de carreras y según la carrera, los caballos corren con un peso de 48 a 61 kg, incluyendo el equipo del jockey. Aunque no existe un límite de altura para los jockeys, por lo general son bastante bajos debido a los límites de peso. Normalmente miden entre 1,47 m y 1,68 m. Algunas escuelas de jockeys aprendices fijan como límite máximo para su ingreso: 22 años de edad, 1,60 m de altura y 50 kg de peso.
Por lo general no son empleados, sino que son escogidos por los entrenadores y propietarios de caballos por un salario más una cantidad extra por victoria. En las carreras lucen los colores de la caballeriza del caballo. Hay premios para los jockeys ganadores de los Grandes Premios y de las Estadísticas Nacionales y un gran respeto para estos profesionales
.”

No entanto, a metáfora não nos serve bem. Provoca, mas não cabe.

Ocorre que o acadêmico é uma atividade profissional que está imbricada à docência e bem sabemos que a docência é vinculada à construção de conhecimentos. Conhecimentos são aprendizagem, e aprendizagem demanda tempo, erro, indagação e inquietação, criatividade e superação. Não se trata apenas da transmissão de manuais, de assuntos catalogados e sistematizados em bancos de dados ou de aulas, em padronização e controle de métodos e procedimentos, de tempos e recursos, pois isso levaria a um horizonte do tamanho e proximidade de uma janela que se fecha.

Um docente tem um alcance infinitamente maior, porque se constitui e se repensa constantemente em um tempo infinitamente maior. O seu alcance o é para o educando, que assim é formado não apenas em um treino ou para a autoconfiança do resultado imediato, mas em uma capacidade intelectual capaz de ser crítica, criativa e propositiva, capaz de relacionar com a beleza sensível da vida e da ética em meio a potencialidades por realizar e a adversas condições de realização dos meios e das razões e finalidades. Coisas estas que não se esgotam no tempo disciplinar, mas se projetam nos desafios de se construir no percurso e escolhas da própria existência. Ou seja, ambos devem ser criativos, estar vivos no processo.

O alcance o é também para a sociedade, não só pela formação competente de pessoas em uma perspectiva integral (deveria ser assim, mas não está sendo, e colhemos o resultado do nosso imediatismo utilitarista e barbárie). A construção de um acervo social rico e diversificado em processos compartilhados e solidários é uma das bases para uma noção mínima de civilidade (o que também não está acontecendo, como deve ser evidente a todos). Ao contrário, ranqueamos ao extremo, em contínuo estresse e autoprojeção para o próprio sistema de ranqueamento, seja na educação, seja nas outras esferas da produção social. Além disso, a relação da pesquisa com o enfrentamento da construção dos meios da sociedade contemporânea são por demais evidentes para que seja preciso eu desenvolver isso agora. Evidência que deve deixar clara a opção redutora que o país e o sistema educacional estão fazendo e refazendo.

      








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