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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


CARTA AOS IRMÃOS
Euler Sandeville Jr.
29 de julho de 2017

Irmãos, todos experimentamos a emoção da perda esta semana, embora em situações muito distintas. O irmão R. perdeu a mãe, difícil imaginar o quão profundo possa ser esse sentimento, ainda quando alguns tenhamos passado por isso. Não conhecia, mas muitos irmãos que conheciam C. sentiram sua partida como acompanhamos, muito provavelmente a igreja em que se reunia sente sua ausência mesmo sabendo que está na presença do Senhor. Eu vi minha orientadora e amiga partir e foi pessoa muito importante para mim. Não devemos menosprezar os afetos humanos, o Senhor nos concedeu essa possibilidade, essa humanidade. Solange era próxima da E., outra professora que faleceu na semana anterior. Do ponto de vista da USP, com o falecimento do Antônio Cândido, isso representa duas ou três gerações que se foram, uma herança - ainda que humana - que se encerra.

Mais, aflições ficam por aqui também, e não podemos lembrar a aflição que é ver um filho desviar-se ou não crer como muitos de nós aqui vivemos. Ou a dos pais ao verem um filho sofrer. Também isso vimos esta semana ampliar-se. Este foi ainda a pouco tempo o caso dos irmãos de Brasília acolhidos pelo irmão L., e esta é a presente e prolongada luta da irmã A., que tem suportado grandes aflições por sua filha M. sem esmorecer na fé e no amor, através do qual acode ainda sua família que carrega tantas marcas da vida. É a luta da M., sofrendo na própria carne e na alma certamente pensando em seu filho, e do jovenzinho, vendo tudo isso. Irmãos, que grande luta elas enfrentam no Senhor. Que privilégio conhecê-las, quão amável é conhecê-las, e mais ainda sabendo da imensa dor e expectativa que agora enfrentam.

Nada disso resume a vida. Temos os afetos entre nós, nossos amigos e familiares, sonhos, alegrias, uma simples refeição juntos pode ser um momento especial e significativo da vida, em nada, nada fútil. Como nos ensinou o Senhor, como nos ensina sua Palavra. Mas temos também os momentos de luto e aflição.

O Livro do Eclesiastes (7.1-3) nos diz:

Melhor é a boa fama do que o unguento precioso, e o dia da morte, melhor do que o dia do nascimento. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração.”

Mas não é fácil esse momento.

Não se trata do Senhor nos incentivar a uma visão pessimista, pelo contrário, o próprio Livro nos exorta, como Provérbios, às coisas agradáveis e, de fato, a alegria é da vontade do Senhor. O Senhor nos convida à benção, mas a entender também os limites em que existimos. Na exortação do Eclesiastes se trata de sabermos dar o peso devido às coisas, de reconhecer a vaidade dos desígnios humanos, de compreendermos nosso fim. Porém, não nos esqueçamos, se a morte ainda opera, foi vencida por Jesus. Jesus, em tudo igual a nós, resplendor de Deus e sua expressão exata.

Em nada disso vemos com os olhos humanos o céu, como Jó não sabia e não soube o que acontecia, nem o porque, mas sua libertação e de seus amigos veio através de sua intimidade com Deus, ultrapassando a sabedoria humana e os rigores da religião. Um vislumbre, que ele buscava, uma escuta que nem imaginava, lhe mudou toda a perspectiva. Esse é também o começo do livro de Hebreus, que nos fala de grandes lutas e sofrimentos, e de maiores esperanças ainda. O Livro começa nos falando de coisas celestiais que nos escapam aos olhos, de uma ordem para nós invisível e gloriosa, na qual existimos. Mas tão logo o faz, ocupa-se por todo o restante do Livro do que podemos ver, e de como aquilo que podemos ver está embrenhado do que não vemos, nos ensinando a como havemos de compreender nossa jornada e como proceder diante do que somos herdeiros e das promessas que nos são estendidas. Irmãos, vemos aquilo que é necessário, e o Senhor nos concede ver o que necessitamos para caminharmos esta jornada com alegria e confiança.

Devemos dar graças a Deus, porque Ele não é Deus de mortos, mas de vivos, e porque é mais alto e sublime do que toda nossa imaginação, não podemos compreender seu poder e sabedoria, sua santidade, mas recebemos a participação Nele pela fé, até que possamos vê-lo face a face. Irmãos, devemos refletir sobre todas essas coisas, sabendo que o Senhor ultrapassa todas elas, podemos amar aos irmãos e aos que estão próximos, nos apoiarmos e crescermos no amor, porque Deus é amor e quem nele está descansou de suas obras como nos diz Hebreus.

Mas Jesus nos disse também, meu Pai trabalha até agora, então o que isso significa? Que somos também seus trabalhadores e filhos, em seu campo, e que necessitamos de sua misericórdia e paciência, da qual todos temos experimentado como em nosso íntimo bem o sabemos, para sermos lavados para o trabalho do dia e para a adoração do Senhor. Não estamos prontos, Ele conhece nossas fraquezas. Que possamos ser, como tem sido compartilhado, essas cartas do Senhor, escritas por Ele mesmo por sua obra em nossos corações e pela comunhão no Espírito e de uns com os outros.

Esse tempo passa, é rico estar aqui e insta-nos constantemente ao aprendizado, a sabermos que caminhamos para um lar e uma pátria que não está aqui. Sim, devemos aprender o que significa estar aqui, devemos olhar através do véu espesso da carne o amor, a potência de ainda estarmos aqui. Se não vemos o que está colocado diante de nós pelo Senhor, como veremos o celestial? Se não nos curamos, como iremos curar? Que o Senhor nos abra os olhos, e alargue nosso coração para essa jornada, nos guarde os passos e o coração Nele.

Por fim, como nos foi partilhado pelos que o serviram antes de nós: “Seja conhecida de todos os homens a vossa bondade. O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.” (Filipenses 4).

no amor de Cristo,

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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