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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


MINHA NEGRITUDE, MINHA HUMANIDADE
Euler Sandeville
02 de dezembro de 2017

Hoje almocei com umas amigas, uma pessoa muito querida que conhecia e me apresentou outras amigas. Pessoas doces, gentis, de garra, que procuram uma razão que valha a pena ser construída para a vida. Como a maioria de nós. Conversamos sobre muitas coisas e algumas dores emergiram, reais, ao contarem sua luta para o crescimento profissional e mesmo em contextos de relações pessoais.

O fato é que a mulher negra, como também o homem negro, e também indígenas, sofre objeções que são maiores do que a de outras pessoas. Sou testemunha disso. Nem tudo é preconceito, é verdade, porque o olhar social não nos acostumou a vê-las em posições de liderança, ou criativas de igual para igual com outras pessoas. Há uma condição estrutural que reservou-lhes a imagem de subalternas (e subalternos) que ressalta esse olhar, cuja superação demanda uma sensibilidade social que tarda sempre. Essa visão, se inteligível em sua dimensão estrutural e histórica é, em si mesma, inaceitável como perspectiva existencial. É inaceitável a perspectiva de nossa sociedade de que alguém seja subalterno em função do que se tem ou não, ou da cor da pele, e acaba se desdobrando em uma visão terrível de todos nós, na verdade imoral, porque desrespeitosa e insensível ao outro.

Minhas amigas são pessoas que admiro, venceram dificuldades, abriram espaços, estão ampliando não só o próprio caminho mas de muitas outras pessoas, pelo amor. Mas tem sido mais difícil para elas. Nem tudo é preconceito, é verdade, mas muito de fato é e nem sempre velado, escandaloso mesmo. Reconheçamos, sobre elas pesam vários pesos que não foram elas, ou eles, que colocaram; já lhes estava posto antes, uma herança que a sociedade evita discutir. É nossa obrigação humana superar isso. Além do preconceito, de uma representação social que as vê não como são, arcam também um peso do qual sequer participaram, o de uma escravidão, que é alienar pela violência uma pessoa de tudo o que consideramos mais essencial. A decorrência disso foi a inserção em um quadro estrutural de desigualdade que ainda pesa hoje e soma ao preconceito da cor de pele ao de classe social de renda. Uma sociedade que mede pessoas (todas) por seu valor econômico, por sua condição social ou etnia e cor, por sua hierarquia na rede de consumo e representações, perderá todos os seus reais valores, e logo não terá onde se agarrar, senão na própria intransigência e medo.

Como deve ser vista uma pessoa? Sermos negros, brancos, orientais, indígenas, não nos faz, por si só, nem melhores nem piores. Não se justifica de modo algum construir juízos de valor assentados nesses preconceitos. Não é isso o que nos qualifica, como deve ser óbvio olhando as injustiças humanas que se multiplicam em todas as épocas e locais. Todos nós, humanos, estamos dotados da possibilidade da maldade e da bondade. Isso não é inerente, vamos escolhendo, aprendendo, definindo se somos capazes e queremos crescer em uma direção ou outra. O que de fato nos diferencia são, efetivamente, nossos princípios, nosso caráter. O caráter, não se engane, não é um dado inerente, está sempre em formação, é uma aprendizagem confrontando a cada oportunidade as escolhas com os princípios, na vontade de superar erros, de firmar acertos.

O modo fútil de ver o mundo atual multiplica o sofrimento, o preconceito, a violência, a intransigência. Podemos compreender esses processos, falar deles, mas o fato é que precisam ser mudados. Não fomos responsáveis por eles, mas passamos a ser quando não mudamos nosso modo de ver, de praticar, de sentir. Não se trata do passado pelo qual não podemos responder nem mudar, trata-se mesmo do presente: estamos a cada passo dizendo quem de fato somos. Quando humilhamos, quando discriminamos pelo preconceito, quando selecionamos as pessoas pela cor da pele e não as olhamos pelo coração e pelo caráter, não estamos destruindo apenas o outro, mas a nós mesmos. Mais do que definir o outro, estamos dizendo quem de fato somos e desprezando a nossa própria humanidade e razão de existir dada por Deus. A maldade, em qualquer de suas formas, sempre diminui e rouba a esperança e assim as possibilidades de construção social mais digna, para nós mesmos, como consequência de ofendermos o outro.

Este texto não é, nem quer ser, um manifesto. É um tributo de admiração a essas amigas que vencem sempre novamente as condições de indiferença e preconceito, dito ou não, e não perdem o amor, a visão do outro, o princípio pelo qual devemos existir.

Agora, dirijo-me a todos, como sociedade, por que haveríamos sempre de hierarquizar o outro, criar limites ao invés de alargar as possibilidades humanas da nossa coexistência? Será que olhando objetivamente para o que estamos construindo, com essas injustiças e polarizações de lado a lado, poderemos ser felizes? Na verdade, será que com todas essas normas e certificados sem fim, nos tornamos melhores, mais respeitosos, mais compreensivos com nossa própria humanidade, tecida tanto com violência residente quanto com afetos, desejos e sonhos de crescimento que abrigamos? O que vemos, e vemos o que somos estando juntos, é ainda aceitável, é uma herança da qual não nos envergonharemos ao sermos vistos amanhã? Olhemos o nosso presente, como um espelho da consciência além do reflexo deformado, mas ainda assim assustador, da sociedade que estamos construindo, como se fossem outros e não nós a fazê-lo. São, de fato, nossas escolhas definindo o que podemos ser e o que somos.

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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