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desenho: Euler Sandeville Jr., julho 2003


MUDAR NEM PENSAR? MUDAR É POSSÍVEL E VALE A PENA.
Euler Sandeville Jr.
29 de outubro de 2017

Há muito tempo atrás encontrei uma pessoa querida. Lembro que estava muito triste, e dizia-me que estava em vias de se consumir porque queria muito algo e aquilo que queria, quanto mais queria, não o tinha, enquanto o que tinha não era o que queria. Nessa busca não encontrava e se encontrava não dava certo. E isso se repetia, como um destino, e assim passou-se o tempo.

Depois encontrei essa pessoa de novo, e estava feliz, havia conseguido finalmente tudo o que idealizara. Os olhos brilhavam, das dores não havia mais lembrança. Encontrei tudo o que queria, disse. Mas os caminhos da vida nos levam para longe e no começo deste ano encontrei novamente com essa pessoa. E como vai, e coisa e tal e isso e aquilo.

Mas o olhar era triste, embaçado, pesado.

- O que há?
- Ah, lembra de quando nos vimos, ... deu errado. O que tenho e queria não quero mais.. ou talvez não fosse mesmo o que queria. Bem, estou em um beco sem saída... o que tenho não quero e quero o que não tenho e tenho o que não quero.

De fato, na crise as coisas ficaram difíceis, mas ponderar isso de nada ajuda. O desprendimento era inevitável. Ontem nos encontramos de novo. É sempre uma alegria rever as amizades, acompanhar a vida das pessoas a quem queremos bem.

- E aí? Como está?
- Desisti do que queria. Foi um alívio, não queria mais porque não era o que queria. Aquilo não era para mim. Ficou claro depois de um tempo. Até que foi bom, depois de um tempo encontrei o que verdadeiramente queria. Achei que tinha encontrado. Acho que era feliz e não sabia... Bom, deu errado, estou triste porque nunca tenho o que quero. Acho que é o destino. É, estou meio triste porque não tenho o que quero...

Estava muito triste, dizia-me que estava em vias de se consumir porque queria muito e aquilo que queria, quanto mais queria, não tinha e não encontrava ou se encontrava não dava certo. Isso se repetia e se repetia senão nos acontecimentos, nos seus sentimentos e falas, quase um desatino.

Despedimo-nos. Fiquei pensando. A insatisfação só pode se satisfazer na perpetuação de si mesma. Se se satisfizesse para além de si, seria a aniquilação da dor, a anulação da insatisfação, do estado existencial emergente e conhecido. A dor e a mágoa, como a carência, só podem se satisfazer na sua própria multiplicação, porque a sua supressão seria como mutilação e aniquilamento da dor, a perda de contato com a causa perdida e difusa sabe-se lá onde dentro de si, o que, talvez, doa ainda mais. A insatisfação, parecendo indeterminada, é um território conhecido, e sua reprodução é sua única forma conhecida de satisfação.

Satisfazer-se? Nem pensar pelo visto. Mágoa, culpa, carência, medo, tornaram-se um lugar conhecido. A insatisfação é apenas sua porta sem saída. Que não ousem roubar-lhe a porta, que não ousem abrir uma saída no quarto escuro. Tudo o que existe deseja reproduzir-se, perpetuar-se. A insatisfação só pode realizar-se na própria insatisfação. Mudar? Pelo visto, nem pensar, para aquele que está preso na própria insatisfação.

Mas as coisas não precisam ser assim, ainda que as contrariedades façam parte (e devam fazer) de nosso crescimento e de nosso viver. Exatamente por isso lhes digo, por experiência própria, mudar é possível. Não é linear, não é um caminho sempre seguro, muitas vezes não temos as coisas garantidas e experimentamos nossa contradição e incompletude, senão mesmo incapacidade.

Não somos nem seremos perfeitos. Mas não precisamos nos definir pela incapacidade, pela dificuldade, pelo imediato, pelo acontecimento contraditório. Podemos nos definir pelo caminho, no caminhar, no aprender, no superar-se. Se não desistirmos, não nos colocarmos na complacência de nossos próprios erros, medos e incapacidades, sempre poderemos levantar os olhos novamente, tomar forças e nos erguermos para retornar ao caminho. Mudar, para melhor, claro, segundo valores mais sólidos e uma visão espiritual dos caminhos do nosso Criador, é possível, vale a pena e é nossa melhor condição de realização.

      








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uma proposta de Euler Sandeville Jr.


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