UM SOPRO NA NEBLINA I. HÁ SENTIDO NA EXISTÊNCIA?

Euler Sandeville.
Itu, 12 de janeiro de 2020

 

Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém:
Vaidade de vaidades (hă·ḇā·lîm hā·ḇel), diz o Pregador (qō·he·leṯ, Kohelet); vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?

 

Esses três primeiros versos de Eclesiastes praticamente resumem o conteúdo que virá no Livro: a busca de sentido da existência e seu questionamento. Mas não resumem sua conclusão, que vai se construindo ao longo de toda a narrativa até o desfecho que Eclesiastes apresenta apenas ao final. Eclesiastes não é apenas o nome do livro, mas é a posição daquele que fala em uma assembleia. Seu longo discurso indica uma pessoa experiente, retendo a atenção dos interlocutores pela mensagem de sabedoria que apresenta até o termo de sua fala. O nome Eclesiastes, traduzido talvez de modo insuficiente por Pregador ou Eclesiastes (tradução da palavra hebraica qō·he·leṯ para o grego ekklesiastes, cujo sentido se perde para nós hoje), refere-se portanto a uma pessoa que, por sua sabedoria e experiência, toma a palavra na assembleia.

No entanto, muitas vezes o livro do Eclesiastes é lido como um texto niilista ou até mesmo cético e pessimista. De fato, o narrador apresenta em muitos momentos uma decidida desilusão com seus esforços em busca do sentido e do conhecimento, mas este é apenas um dos aspectos, embora frequentemente o que chame mais atenção. Logo se vê, na leitura da narrativa, que é dessa indagação profunda, que não recusa nem a crise nem o prazer e se realiza no decorrer empírico da vida, que emerge uma visão equilibrada entre a tristeza e a alegria e do sentido da existência.

Mais do que a constatação da vaidade e vacuidade dos propósitos humanos (“vaidade de vaidades, tudo é vaidade”), a questão que me parece central é ser a observação “debaixo do sol”. O livro todo é um olhar da tristeza, da alegria, da vida e da morte, das gerações, dos esforços, da riqueza e da pobreza, do tolo e do sábio, da justiça e da injustiça, como se apresenta debaixo do sol. E para quem observa debaixo do sol o que ocorre debaixo do sol, a grandeza intransponível de Deus e a transitoriedade da vida saltam aos olhos. Um conhecimento construído debaixo do sol, sem uma revelação transcendente, mesmo reconhecendo a obra e soberania de Deus, mesmo reconhecendo o mérito da justiça ainda quando negada pela injustiça, não é capaz de imprimir um sentido perene à existência.

Portanto, aqui está a chave para a primeira questão que recorrentemente o livro suscita. “Aquele que fala na assembleia” (no hebraico qō·he·leṯ, ocorre 7 vezes nesse livro e em nenhum outro das Escrituras) necessariamente fala da sabedoria, o que, para os antigos hebreus, não se poderia conceber na nossa dissociação moderna entre saber e viver e, sobretudo, na nossa distância racionalista da transcendência da existência diante de Deus. O observador atento e perspicaz do que ocorre debaixo do sol por si só não encontra um sentido perene ou transcendente, senão o reconhecimento dos ciclos e das expressões.

A expressão debaixo do sol ocorre 29 vezes no livro, enquanto Deus (Elohim) aparece 42 duas vezes, a partir do olhar do homem que observa o que ocorre debaixo do sol, concluindo sobre a vaidade ou indiferença do destino humano (a palavra vaidade ocorre 34 vezes). Indiferença mais para o próprio homem assim sujeito à percepção da própria transitoriedade, mas não para Deus que, presente e ativo na existência que criou, julga e abençoa ou recusa as ações humanas. Nesse sentido, o pensamento de Kohelet parece ter certa proximidade com o dos amigos de Jó, e a do próprio Jó, antes da revelação de Deus a Jó no capítulo 38. Da mesma forma parece haver certo diálogo com Provérbios, mas enquanto em Provérbios os ensinamentos são claros, aqui há sempre uma tensão na validação dos valores.

Portanto, o que traduzimos do hebraico por “vaidade de vaidades” (hă·ḇā·lîm hā·ḇel) e a pergunta “que proveito tem?”, podem tanto dar o sentido do livro, quanto podem nos levar a uma interpretação alterada de sua mensagem, senão mesmo oposta à sabedoria e intenção do Kohelet, o homem em busca de sabedoria que fala à assembleia. O próprio narrador, após ressaltar sua posição de descendente de Davi, mas na qual não busca a autoridade de sua fala e sim em sua experiência, se apresenta nos versos 12 a 18 do primeiro capítulo com uma decepção com seu esforço em busca do conhecimento, levando a um conjunto de indagações no decorrer do livro que preparam a conclusão que o Kohelet entende como a única possível para nos apresentar.

É interessante a sinceridade, a forma direta e a humildade com que o Kohelet apresenta suas conclusões à assembleia, centrado na experiência e na busca e não na autoridade ou prerrogativa de posição (1.1,12). Aliás, é interessante que situa sua posição, no verso 12 desse primeiro capítulo, no passado (ainda que contínuo), e não no presente, demonstrando essa cautela de que não deseja ser ouvido por essa condição, mas pelo ensino que trará (Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato, que já não se deixa admoestar,… 4.13; O proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo. 5.9).

Houve uma pequena cidade em que havia poucos homens; veio contra ela um grande rei, sitiou-a e levantou contra ela grandes baluartes. Encontrou-se nela um homem pobre, porém sábio, que a livrou pela sua sabedoria; contudo, ninguém se lembrou mais daquele pobre. Então, disse eu: melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas. As palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem mais do que os gritos de quem governa entre tolos. Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, mas um só pecador destrói muitas coisas boas. (Eclesiastes 9.14-18).

Trechos como que proveito tem? e vaidade (inutilidade) de vaidades (inutilidades), e outros no livro, centrais à sua construção, podem levar a um entendimento equivocado de que o sentido do livro é niilista. É muito mais profundo do que isso, como faz pensar essa crítica da estultícia do rei em oposição à sabedoria e a denúncia da injustiça nas relações humanas, que ocorre em outros trechos de sua fala, ainda que reconhecendo que a sabedoria não será preferida pelos homens.

Confesso que em minha primeira leitura, décadas atrás, deixei-me levar pela ideia de ser a mensagem do Kohelet um sentimento fundamentalmente de inutilidade ou indiferença. Para o leitor das Escrituras, esse entendimento pode ser reforçado ainda pela falta de menção ao nome da revelação de Deus na Aliança (יְהוָה), que marca uma manifestação pessoal e histórica de Deus com os patriarcas e profetas. Mas isso deve nos levar a uma instigante indagação, em oração, pela compreensão da beleza de seu lugar nas Escrituras.

O Livro, ao leitor atento, de modo algum traz uma ausência de Deus. Em nenhum momento Kohelet duvida de Deus ou ousa questioná-lo diretamente (como muitos profetas chegaram a fazer e também Jó, aqui mencionado), ao contrário, porém o observa sob o sol. Deus é mencionado constantemente por Kohelet em sua detalhada exposição, cerca de 42 vezes segundo minha conta, pelo nome ’ĕ·lō·hîm (אֱלֹהִ֛ים), o mesmo que é utilizado no capítulo 1 de Gênesis, que narra a criação. Só que em Gênesis, vemos claramente a ação de Deus plasmando e apreciando a criação, inclusive em sua dimensão estética, portanto, envolvido na sua obra e seu destino.

Para que o leitor não pense que אלהים é qualquer Deus, Qohelet usa, preferencialmente, esse substantivo com o artigo, para definir, provavelmente, que ele está falando de um Deus específico. De fato, Qohelet é o escritor bíblico que mais utiliza, proporcionalmente, o substantivo אלהים com o artigo. Das quarenta vezes que ele faz uso desse substantivo, em trinta (ou seja, 75%) este é articular. (Castro Neto e Mattos Leal, 2015, nota 5)

Elohim em Gênesis 1 é pessoal, presente em toda a criação. Em Eclesiastes, parece visto a partir do olhar humano diante do mistério da existência como insondável, quase distante e inatingível ou indiferente ao convívio e destino humanos. Porém, essa seria apenas uma leitura apressada. O nome Elohim realça a soberania de Deus, sendo referido assim cerca de 2.600 vezes nas Escrituras hebraicas. O que ocorre é que no livro do Eclesiastes Deus é visto, em um primeiro momento, não a partir de sua ação profética, mas a partir da inquietação e perplexidade do ser humano diante da vida e com os limites humanos para a possibilidade de compreensão dos significados e sentidos da existência. O que é coerente com esse sábio que toma a palavra na assembleia, tendo tateado atentamente ao longo de toda a sua existência o sentido das coisas humanas sob o sol.

Isso tem levado muitas pessoas a considerarem que é um livro escrito para os céticos, e com o qual muitas vezes os céticos mais facilmente se identificam entre os livros da Bíblia. Esse entendimento favorece uma certa surpresa com uma mensagem aparentemente dispare de outros livros, como se fora mais próximo da filosofia do que das Escrituras. Para quem pensa assim, a mensagem de conclusão do Kohelet também chega a causar surpresa, e essa pessoa tende a deixar escapar a magnífica construção do discurso convergindo ao modo como esse homem conclui sua mensagem à assembleia. Esta pode ser uma leitura imediata, mas certamente distante da mensagem do livro, que é habilmente construído na narrativa de alguém que fala com autoridade e experiência aos seus interlocutores convergindo quase de maneira lógica à sua conclusão.

Sua fala vai se construindo na tensão entre as possibilidades da experiência humana, suas injustiças, desencantos e esperanças, mantendo habilmente em um processo de indagações e conclusões intermediárias, mas sempre incompletas, o interesse de seus interlocutores na experiência e aprendizado que aos poucos vai desvelando. Nesse processo ele vai nos mostrando passo a passo que o sentido da vida não está na prepotência do poder, nem na arrogância da riqueza, nem na vaidade do conhecimento, mas em entendermo-nos peregrinos, aprendendo com os afazeres e realizações que Deus nos confia e nos quais temos nosso quinhão de realização e satisfação (ou não), o sentido da justiça, da sabedoria e da humildade de nossa condição diante de Deus.

Daí vem talvez a característica mais extraordinária da fala de Kohelet, ao concluir sua preleção: aponta para Deus como a possibilidade de significado e razão na existência, mesmo que ainda sem vivenciar (ao menos em sua fala) a revelação que Deus concede a Jó, pois o fim do discurso é o homem debaixo do sol voltando-se para Deus como sua razão. A questão da revelação me parece absolutamente central nesses dois livros, Eclesiastes e Jó, e parte de uma manifestação de Deus, está além da possibilidade humana senão intuir sua presença e grandeza, mas é apenas quando Deus se revela, nos inclui em sua intimidade, que somos plenamente satisfeitos em nossas questões. Para entender isso, precisamos do livro de Jó, onde esse passo é dado, superando as questões tornavam nebulosas a vontade de Deus e o sentido dos acontecimentos a que estamos sujjeitos.

O livro de Jó começa com o Deus Todo Poderoso. Jó é um homem íntegro e reto, temente a Deus (אֱלֹהִ֛ים, Elohim) e que se desviava do mal (Jó 1.1), cujo destino iria ser traçado em uma realidade espiritual inacessível aos humanos. O nome da Aliança (יְהוָה) só é mencionado na esfera celestial nos capítulos 1 e 2 e por Jó apenas no início de seus sofrimentos no capítulo 1 e brevemente no 12, nenhuma vez por seus amigos. Mas, Deus ao se revelar a Jó no final, é o Deus da Aliança (יְהוָ֣ה) dirigindo-se a Jó e Jó dirigindo-se a Ele, um diálogo que jamais ocorre em Eclesiastes.

O que é tão significativo nesse encerramento da fala do Kohelet, uma vez que ainda nos mostra o Deus Todo Poderoso como razão completa do ser humano, mas não na possibilidade de uma conversa? É que sua conclusão sobre o que foi e o que aprendeu abre um novo horizonte, a possibilidade de um outro olhar para seus interlocutores construírem um outro caminho, quase certamente distinto do seu e daquele em que se encontram seus ouvintes. O discurso filosófico se encerra em seu limite (Este é o fim do discurso; tudo já foi ouvido, Ec 12.13a), mas a lição daquele que tomou a palavra na assembleia é a de uma abertura para um outro modo de ver. Sua conclusão é a potência de um início, um convite a um percurso com significado que deixa aberto daí em diante aos seus interlocutores. Esta abertura é a força do encerramento do livro, que tendo olhado longamente para o que foi, nos deixa um convite para um outro percurso, a partir do entendimento adquirido.

 

Atlas (c. 1602?) no Teatro delle Acque (Teatro das Águas), de Carlo Maderno e Orazio Olivieri. Villa Aldobrandini (Villa Belvedere), Frascati, na Província de Roma, região do Lácio. Construída pelo Cardeal Pietro Aldobrandini, sobrinho do Papa Clemente VIII, sobre um edifício pré-existente, de 1550. Arquitecto Giacomo della Porta (1598 a 1602), Carlo Maderno e Giovanni Fontana (1602-1621) pelos arquitectos. Disponível em atlasofdigitaldamages.info/v1/ Acesso em 20/01/2016.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s