SALMO 19 (1. CONTEMPLANDO AS OBRAS DE DEUS)

MEDITAÇÕES A PARTIR DO SALMO 19
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 08 de maio de 2016

 

1. contemplando as obras de Deus

 

“Para o mestre de música. Um salmo de Davi.

Os céus revelam a glória de Deus,
o firmamento proclama a obra de suas mãos.
Um dia discursa sobre isso a outro dia,
e uma noite compartilha conhecimento com outra noite.
Não há termos, não há palavras,
nenhuma voz que deles se ouça;
entretanto, sua linguagem é transmitida por toda a terra,
e sua mensagem, até aos confins do mundo” (Salmo 19.1-5)

 

Quantas vezes, e em quantas situações, não experimentei essas possibilidades? No entanto, ao refletir, e ao sentar-me para escrever, não só a memória convida e é convidada pelo entendimento, como podemos aprofundar a compreensão do que fazemos. As escrituras iniciam-se, no livro do Gênesis, nos contando que tudo o que Deus fez era bom. Não só isso, mas que Ele observou todas as coisas, e as provou, verificando que eram boas. Essa expressão “viu Deus que era bom” aparece ao menos 7 vezes no primeiro capítulo do Gênesis. Isso mostra o cuidado afetuoso e irradiante de Deus com tudo o que faz.

Comecei este compartilhar lembrando-me do sol em meu quintal em uma manhã. Poderia lembrar também de meu quintal em um dia chuvoso, ou em qualquer outro lugar. A tempestade no campo, ainda mais do que na cidade, com o céu ficando carregado, com as distâncias diluindo-se nas rajadas de água e vapor, e as descargas luminosas como a percussão de uma orquestra, também é bela. Cada coisa tem sua beleza, mas a cidade e seu modo de vida nos fazem habituar-nos com um mundo muito imediato, em agitação ininterrupta, de curto alcance, respostas rápidas e com uma informação bem menor do ambiente em que estamos.

No tempo em que morei em uma chácara, pude contemplar o movimento do sol, seu ir e vir dia a dia e ao longo das estações, não só em um arco abóbada celeste do oriente ao poente, mas também em relação à linha do horizonte. Aliás, toda ela também perceptível, gerando uma contínua fruição da luz e de sua variação não só ao longo do dia e da noite, e das estações, mas dos diversos setores e quadrantes conforme ainda os contextos em que incide – um rio, uma represa, uma floresta, um campo plantado, uma encosta encaixada que ainda não recebeu a luz da manhã…

Todos os dias o sol faz o mesmo percurso, mas em abril nasce e deita-se no horizonte em um ponto e em maio em outro, caminhando até um limite quando retorna, e depois começa novamente. É como uma dança, uma orquestra na atmosfera, nas cores, nos movimentos, nos estados de ânimo de todas as criaturas.

O tempo ganha outro sentido no campo, e as estações são amplificadas pela diversidade de situações. Todos os dias o por do sol é uma presença não apenas em um único ponto de vista, como geralmente na cidade: quando atentamos para ele no burburinho do fim do dia, está sempre em perspectiva e enfrestado. No campo, toda a abóbada está disponível de alto a baixo, e por quatro anos na chácara nunca vi um por de sol igual ao outro.

No suceder da noite, as estrelas ressoam e cintilam na imensidão e na profundidade do céu em um outro tipo de música e de harmonia. Mas, sem dúvida, música na qual percebemos dimensão irrelevante de nosso tamanho e a brevidade de nosso tempo, a maravilha para além de nós mesmos. Mas também a quantidade de animais, de plantas, de cores, de distâncias em que o olho mesmo distraído se exercita, a experiência do sol na pele, da temperatura do ar ao longo do dia. O orvalho, a umidade, tudo varia e se repete, tudo interage, tudo é conhecimento.

A beleza do que criamos é indissociável da beleza da natureza. E esse aprendizado pode nos ensinar bem mais do que uma beleza que se esgota em si mesma, como na arte, ou de uma tensão contraditória entre beleza e funcionalidade como na contabilidade. Arte, engenharia, contabilidade, etc., são todas possibilidades do engenho humano. No entanto, parece que as cisões que geralmente operamos, inexistentes na natureza, rápido degeneram-se atraídas pelo fútil ou pelo funcionalismo, ambos empobrecimento de nossas possibilidades sensíveis, cognitivas e morais. Portanto, existenciais. Essa dissociação é uma imensa perda para nossa experiência de mundo.

De fato, há – ou pode haver – beleza nas coisas que fazemos, mas, antes disso, ela brota das coisas criadas. A percepção sensível e estética do mundo, e nossa capacidade de fazer coisas belas, enraízam-se em uma primeira experiência, com a própria natureza. Mesmo quando é despercebida. A natureza nos ensina a beleza, a contemplação, o sentido de um tempo que não é o do relógio, das nossas obras e criações. Mais, nos mostra na beleza e no arranjo das coisas criadas a existência de Deus, sua presença, seu cuidado afetuoso com o conjunto e com os detalhes, sua justiça, sua sabedoria, seu amor.

Como se lê no Salmo 19, cujo início foi transcrito acima, a glória de Deus é revelada pela criação, sem dúvida uma experiência estética e, sem dúvida, agradável. A natureza na Bíblia é tratada com imensa alegria e admiração pelo SENHOR, cujo nome é inefável. Seriam de fato muitos os textos sagrados nessa direção. Esse pequeno trecho inicial do Salmo, entretanto, deixa claro que a adoração vem também da contemplação da natureza criada e do reconhecimento da imensidão de Deus, de sua sabedoria e carinho nessa criação.

 

 

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