O PRAZER E O PECADO (ESTUDO EM GÊNESIS 3: A QUEDA)

Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 28 de maio de 2016, 26 de fevereiro de 2020

.

Pensamentos de contrariedade entre espírito e natureza, entre homem e natureza, entre prazer e criação e, inversamente, a associação entre prazer como residindo no domínio do pecado, simplesmente não são bíblicos.

De fato, parece haver na cultura ocidental uma ênfase negativa sobre o prazer, mesmo quando é hedonista e transgressiva, situações em que geralmente o prazer sensório é exaltado. Frequentemente, vem associado, com maior ou menor profundidade, à repressão moral dos desejos, à realização egoísta ou à rebeldia como um valor em si. Entre o tudo ou nada pode e o tudo pode com culpa, há um enorme abismo em relação ao ensinamento bíblico. Com isso, o prazer perde, em nossa cultura, a simplicidade original bíblica.

Um bom resumo do sentido do prazer e da beleza em seu sentido bíblico pode nos ser dado pelo verso:

E YHWH Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida, … (Gênesis 2.9).

.

O que significa, então, dizer que as coisas criadas, e não só as árvores (veja o capítulo 1 do Gênesis) eram agradáveis à vista, ou formosas, e boas para comida?

A palavra hebraica traduzida como “formosas (à vista)”, ou em outras traduções “agradáveis (aos olhos)”, é neḥ-māḏ (חָמַד), que pode ser traduzida, segundo o que pude apurar, como desejável, que dá prazer. E a palavra que indica boas (para comer) é wə-ṭō-wḇ (towb. טוֹב): que significa bom, agradável (em inglês pleasant, agreeable). Não resta dúvida que as coisas boas para comer em Gênesis 2 eram também atraentes, e não só não há mal algum nisso, como há virtude, segundo Gênesis 2.

Paradoxalmente, para o senso comum e para o leitor desatento, essas são as mesmas palavras que irão aparecer no momento que, em Gênesis 3:6, Eva contempla o fruto proibido e percebe que era “agradável ao paladar, muito atraente aos olhos”:

Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa (ṭō-wḇ) para se comer, e agradável (tah-av-aw’) aos olhos, e árvore desejável (wə-neḥ-māḏ) para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu.

.

Você percebe o que isso significa? A árvore do conhecimento do bem e do mal, vista assim por Eva, não diferia, nisso, em nada das outras árvores ou das demais coisas criadas por Deus. Não é uma inferência minha, compare novamente Gênesis 3.6, quando Eva cobiça a árvore proibida, reproduzido acima, com o verso em 2.9, também reproduzido acima, que descreve todas as árvores do jardim no Éden. Compare ainda com os versos do capítulo 1, em que Deus aprecia o mundo criado.

Agora, por qual razão as pessoas resolveram ficar só com Gênesis 3:6, em que o agradável passa a ser indevidamente identificado com o pecado, é que não sei. O capítulo 2 de Gênesis (2.9), que lemos logo acima e antecede estes últimos versos citados, não nos diz só que Deus criou toda sorte de coisas boas e formosas. De fato, o verso 2.9 continua explicitando essa criação. Observe que, de fato, duas árvores se distinguiam no seio das coisas criadas:

E o YHWH Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis (neḥ-māḏ) à vista e boas (wə-ṭō-wḇ) para comida, bem como a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal”.

.

Se lermos um pouco mais adiante, veremos o fato desconcertante de que YHWH não proibiu que o homem usufruísse da árvore da vida. De fato, dentre a infinidade de coisas criadas, todas ao alcance do homem, havia apenas uma única exceção posta ao homem e à mulher. E a razão dessa interdição foi dada com toda a clareza, e não tinha nada a ver com o prazer, a beleza, a satisfação, que eram uma prerrogativa inerente naquele jardim:

E YHWH deu a seguinte ordem ao homem: “Comerás livremente o fruto de qualquer espécie de árvore que está no jardim; contudo, não comerás da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, com toda a certeza morrerás!” (Gênesis 2.16-17).

.

“No dia em que dela comeres, com toda a certeza morrerás!”, é o que está escrito aí. No entanto, porque Eva e Adão comeram? Primeiro, porque, ao invés de responderem ao diabo: “Deus disse: não comerás” e encerrarem a conversa, foram se deixando rodear e penetrar pela dúvida, e na sequência pela ambição.

Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” Respondeu-lhe a mulher: “Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais” (Gênesis 3.1-3).

.

Uma vez estabelecido o diálogo, a partir de uma afirmação falsa, coloca-se a dúvida. Uma vez posta a dúvida, vem a confusão. Eva diz que não poderia comer da árvore no meio do jardim, mas a que estava no meio era a árvore da vida, não a do bem e do mal. Diz que não poderia tocar, aumentando a restrição que Deus colocara. A Bíblia nos diz que sem fé é impossível agradar a Deus, e que os que são filhos da fé é que são filhos de Deus. Ao surgir a dúvida, embora tudo lhes estivesse à disposição, também surge o desejo de obter algo por si mesmos à revelia de Deus.

Então, a serpente disse à mulher: “É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal”. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. (Gênesis 3.4-6).

.

O que é esse conhecimento do bem e do mal? As pessoas pensam apenas no fruto, capaz de dar esse conhecimento e este é o erro. Atentam para a atração do fruto, ou do conhecimento, e esquecem a essência do que está em jogo. Não indagam o que é o bem e o mal. O conhecimento do bem e do mal é o conhecimento da presença e da ausência de Deus, que é a experiência da presença e da separação de Deus.

Sem perceberem que já eram criados à imagem e semelhança de Deus, são levados pela dúvida acerca de Deus, de seus propósitos e do que Ele disse (falta de fé), operando então a ambição. Adão e Eva duvidaram da bondade de Deus, julgando que Deus, por egoísmo, lhes impedira de algo que poderiam ter. Quiseram ser como Deus: “e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”, conforme outra tradução. De Deus não procede o mal, na verdade, ao comerem o fruto tornaram-se apartados de Deus, como o Diabo que lhes tentava. O que conheceram não foi o bem, do qual já participavam, foi o mal (ra’ רָע).

Há algo de interessante na expressão que nomeia a árvore do conhecimento do bem e do mal. A palavra “bem” que aparece no nome da árvore é a mesma que já vimos aparecendo em todo o primeiro capítulo (ṭō·wḇ), quando Deus aprecia todas as coisas: é uma prerrogativa de Deus. A palavra “mal” (ra’ רָע) é, por exemplo, a mesma que aparece em Gênesis 13.13 quando se diz que “Ora, os homens de Sodoma eram maus (ra’ רָע) e grandes pecadores contra o Senhor”. De certo modo, sem o saberem, já tinham o conhecimento do bem, ao conhecerem a Deus e usufruírem das coisas criadas, o que não tinham, e passaram a ter, foi o conhecimento do mal.

O homem e a mulher antes andavam na presença de Deus livremente, tinham conhecimento do mundo criado (Adão deu nome aos animais, o que implica em conhecimento e discernimento). Mas agora:

  • sentem culpa e medo (tive medo, e me escondi Gn 3.10),
  • ficam insatisfeitos ou desajustados consigo mesmos e tentam camuflar seu erro pelo próprio esforço (e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si, Gn 3.7) e
  • escondem-se de Deus entre as coisas criadas (esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim, Gn 3.8).

.

Todas as coisas criadas por Deus, desde Gênesis 1, inclusive a árvore interditada ao homem, têm essa característica de serem boas, agradáveis, feitas com cuidado e atenção, capazes de revelar a beleza (compare acima os versos de Gênesis 2.9, 2.16-17 e 3.6, bem como os do capítulo 1 já citados). A satisfação não é contrária à criação de Deus.

Portanto, não é no agrado dos olhos em si que está o problema de Gênesis 3.6, mas por alguma razão mesquinha e corrupta as pessoas quiseram identificar o agradável com o pecado de que trata o mesmo versículo, e com a punição decorrente. Punição sem dúvida justa, mas que é sobre o pecado, e não sobre o bom ou o agradável, porque assim eram todas as coisas que Deus fez desde o início, como lemos antes.

Se não é este o sentido, porque há essa sobreposição tão arraigada no senso comum? Em parte, porque ninguém gosta da punição, e muito menos de reconhecer seus erros, sobretudo quando os resultados são graves. No caso em questão, estabeleceu-se não apenas um desequilíbrio na relação com Deus, o afastamento de Deus, mas um desequilíbrio na relação com o mundo criado, cujo cuidar estava sob a responsabilidade humana.

A tendência é esconder a própria consciência do erro e evadir-se assim da punição. Simplesmente não faz sentido, pela Bíblia, esse desvio. Pode ser que faça sentido apenas pela consciência de pessoas atormentadas, procurando desviar para a exterioridade de si a causa de seus erros. A palavra traduzida por agradável é tah-av-aw’, e esta não pesquisei, mas basicamente significa desejo. Aparece em outros locais com um sentido negativo, como no Salmo 10.3

Pois o ímpio gloria-se do desejo do seu coração, e o que é dado à rapina despreza e maldiz o Senhor

.

Mas, no mesmo Salmo, no verso 17 vem com sentido positivo:

Tu, Senhor, ouvirás os desejos dos mansos; confortarás o seu coração; inclinarás o teu ouvido, …

.

Não é no agradável, no atraente e no desejável, do qual sem dúvida pode se valer o pecado, mas é no coração que produz a maldade e a recusa de Deus, que oculta seus desejos ou escusas, que está o problema. Não vai aqui a afirmação boba de que todas as coisas são permitidas, evidentemente não eram nem são. Mas também não cabe a afirmação leviana de que não havia lugar para o prazer ou de que o mundo ou a beleza fossem maus.

De fato, todos devem lembrar que a primeira atitude de Adão e Eva, após formarem consciência do pecado, foi esconderem-se entre as árvores e ocultar sua vergonha, com um artifício que, evidentemente, era frágil – uma folha de figueira. A figueira tem um simbolismo nas Escrituras ligado às promessas de Deus, à eleição, mas não é necessário avançar nisso aqui.

Mais ainda, arguidos por Deus, não só imediatamente procuraram ocultar a culpa, mas percebendo a impossibilidade óbvia de fazê-lo, atribuem a culpa a outrem. Adão lança a sua própria responsabilidade sobre sua companheira, Eva, sem se importar com o que significaria isso. Eva atribui a responsabilidade de seus atos à serpente. O coração procura ocultar seu pecado, torná-lo exterior a si, seja através culpar algo que o atrai, seja através de culpar um outro por seu próprio erro, seja procurando forjar cozendo nas coisas de Deus (a folha da figueira transformada em veste) a cura impossível e frágil de seu mal.

A carta de Tiago, no Novo Testamento, nos explica o que ocorreu no jardim no Éden, e ainda ocorre conosco. Preste atenção ao que dissemos acima, ao ler estes versículos a seguir:

Ninguém, sendo tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte. Não vos enganeis, meus amados irmãos. (Tiago 1.13-18).
1866, Gustave Doré, Adam and Eve Are Driven out of Eden. Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/Doré’s_Bible_Illustrations#Genesis acesso em 15 de abril de 2020.

.

.

.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s