A CRIAÇÃO DE DEUS (ESTUDO EM GÊNESIS 1)

Euler Sandeville Jr.

setembro de 2017, revisão março de 2020

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Em Gênesis 1 lemos, no primeiro parágrafo da Bíblia, que Deus criou no princípio (ou começou a criar) o céu e a terra, mas a terra era deserta (vazia) e imersa em confusão, sem forma.

1 No princípio criou Deus [אֱלֹהִ֖ים ’ĕ·lō·hîm] os céus e a terra. 2 A terra era sem forma e vazia [תֹ֙הוּ וָבֹ֔הו wā-ḇō-hū: vazia, ṯō-hū: falta de forma, confusão, irrealidade, vazio); e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.

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São estes os dois versos iniciais da Bíblia. No terceiro ficamos sabendo que Deus criou a luz:

3 Disse Deus [אֱלֹהִ֖ים ’ĕ·lō·hîm]: haja luz. E houve luz.

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Há pessoas que querem ver aí um paralelo com as teorias científicas da origem do mundo, inclusive com a explosão do Big Bang, também conhecido de modo mais apropriado pelos irreverentes artistas do início do século 20, como Big Band, ou seja, jazz. Não há qualquer necessidade de buscar esse paralelismo de Gênesis com a ciência, mas, talvez, com alguma liberdade, possamos encontrar com a cadência ritmada e musical do jazz. Há que se ler com atenção e entender o que está ali.

Em Gênesis 1:4, que talvez se possa dizer que é o segundo parágrafo da Bíblia, vamos encontrar algo que certamente deixa as pessoas mal humoradas e taciturnas ainda mais mal humoradas e iracundas. Deus viu que era bom. É, “Deus viu que a luz era boa”. Era boa!

4 Viu Deus que a luz era boa [ט֑וֹב ṭō·wḇ]; e fez separação entre a luz e as trevas.

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A palavra que traduzimos por boa (towb), poderia também ser traduzido por bela. Se lermos o primeiro capítulo da Bíblia, que trata da criação, veremos que essa parece ser, de fato, a tônica do capítulo, ao revelar o poder e o cuidado de Deus em sua criação:

4 Viu Deus que a luz era boa [ט֑וֹב ṭō·wḇ]; e fez separação entre a luz e as trevas.
10 Chamou Deus ao elemento seco terra, e ao ajuntamento das águas mares. E viu Deus que isso era bom [טֽוֹב׃ ṭō·wḇ.].
12 A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo as suas espécies, e árvores que davam fruto que tinha em si a sua semente, segundo as suas espécies. E viu Deus que visso era bom [טֽוֹב׃ ṭō·wḇ.].17 E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, 18 para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom [טֽוֹב׃ ṭō·wḇ.].
21 Criou, pois, Deus os monstros marinhos, e todos os seres viventes que se arrastavam, os quais as águas produziram abundantemente segundo as suas espécies; e toda ave que voa, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom [טֽוֹב׃ ṭō·wḇ.].
25 Deus, pois, fez os animais selvagens segundo as suas espécies, e os animais domésticos segundo as suas espécies, e todos os répteis da terra segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom [טֽוֹב׃ ṭō·wḇ.].
31 E viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom [ט֑וֹב ṭō·wḇ]. E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

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Há uma deliciosa cadência nesse relato, e na repetição poética de algumas palavras, como essa marcação em toda criação, a cada etapa que era criada, Deus provando que era bom. Essa contínua apreciação da criação converge, ao observar tudo junto no sexto dia, com a apreciação por Deus de que era tudo muito bom. Em todos esses casos é a mesma palavra que marca esse contínuo apreciar e ponderar de Deus sobre o que estava criando e as relações cuidadosas que assim se estabeleciam: era bom [ט֑וֹב ṭō·wḇ].

Nesses versos do primeiro capítulo de Gênesis que reproduzi acima vemos como Deus, a cada obra que fazia na criação do mundo, ia apreciando, saboreando o resultado. A palavra bom, ou boa, assim traduzida em nossas Bíblias, talvez perca um pouco do sentido original, que é indissociavelmente estético. A criação, na medida em que ia sendo feita e apreciada, trazia um estar presente de Deus na criação, com envolvimento e satisfação.

Muita gente parece ler em “era bom” apenas o equivalente a “era útil”, ou que funcionava. Talvez porque a era moderna começou a ver o mundo como leis funcionais. O funcionalismo e a culpa diante da beleza e da sublimidade da criação vieram muito depois, muito depois mesmo, junto com o desrespeito. O ódio à natureza e sua destruição utilitarista são uma condição moderna, submetendo tudo ao lucro e colocando a usabilidade e a utilidade na condição limitada de funcionalidade e eficiência. Nada menos bíblico do que isso.

Ao contrário, “era bom” indica a perfeição e a sabedoria que não pode ser reduzida na Bíblia ao mero funcionamento, pensamento típico em nossa sociedade, mas não daqueles tempos. Essa apreciação que encontramos no Gênesis, na Criação – era Bom, era Boa – é uma apreciação cuidadosa que Deus fazia de cada coisa, carinhosa, afetiva, poética.

Mais, na leitura ritmada desse capítulo há uma musicalidade, quase a de uma dança, uma poesia que o ritmo da narrativa deixa entrever, em que Deus vai realizando e apreciando coisa por coisa que vai criando, avaliando-as em sua perfeição e nas relações que estabelecem. Esse sentido fica forte também na expressão “façamos”, implícita no plural, que Deus usa em sua criação; trata-se de um contínuo diálogo consigo e possivelmente com a corte celeste, apreciando cada ato de sua criação, até concluir, ao cabo dessa obra, de um cuidado e beleza extraordinários, que tudo junto era muito bom.

Surpreenda-se! A palavra hebraica que expressa essa conclusão de Deus, de que era boa e portanto aprazível, é, mais uma vez, aliás, pela primeira vez na Bíblia, ṭō-wḇ (טוֹב), o sentido de ser agradável. A luz era agradável! E assim cada coisa, agradável, boa, bela, desejável, útil, capaz de produzir satisfação não só nos seres criados, mas em Deus.

O que significa, então, dizer que as coisas criadas eram agradáveis à vista, ou formosas, e boas para comida, ao se referir às plantas, como aparece ainda no capítulo 2 do Gênesis?

9 E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis [נֶחְמָ֥ד neḥ·māḏ] à vista e boas [וְט֣וֹב wə·ṭō·wḇ] para comida, bem como a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.

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No capítulo 2 de Gênesis, palavra hebraica traduzida como “formosas (à vista)”, ou em outras traduções “agradáveis (aos olhos)”, é neḥ-māḏ (חָמַד), que pode ser traduzida, segundo o que pude apurar, como desejável, que dá prazer. A beleza ante os olhos humanos não era distinta do sabor e da função como alimento. A palavra que indica boas (para comer) é wə-ṭō-wḇ (towb. טוֹב): que significa bom, belo. Voltaremos ao capítulo 2 em outro estudo, mas essa conjunção prazerosa e estética, saborosa mesmo, não tem em si nada de pecaminoso, ao contrário, é a marca da criação de Deus. Se usarmos mal, já é outro problema.

Que coisa, não? Segundo o relato bíblico há uma dimensão estética e prazerosa na criação, não apenas para o homem, mas para Deus. É por isso que a cada coisa que cria, no capítulo 1 Deus a aprecia e conclui: era boa, era bela, era perfeita, agradável. O faz com afeto. No capítulo 2 isso foi concedido ao homem participar, tal o cuidado amoroso de Deus com o que faz. A criação de Deus criou é bela e boa, é ética e estética, sensível e prazerosa, atendendo perfeitamente a todos os propósitos com afeto e alegria, com satisfação do nosso Criador.

 

1866, Gustave Doré, The Creation of Light . Disponível em commons.wikimedia.org/wiki/Doré’s_Bible_Illustrations#Genesis acesso em 15 de abril de 2020.

 

 

 

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