ENTRE O DESTINO E A DECISÃO

Euler Sandeville,
16 de janeiro de 2021

OLHAR OS DETALHES, aquelas coisas que não são percebidas entre as que parecem muito grandes e nada são, para aprendermos a ver as que de fato valem a pena.

Desacostumados com a beleza, todos os dias nossos olhos são disputados em discussões que, disputando o mundo, o destroem. Confiam gladiadores e imperadores em que nossos olhos e almas desejem se encantar por encantadores de ilusão, mais do que com a verdade, a ética ou a justiça. Pior, talvez saibam que queremos nos iludir e desfrutem seu breve e enganoso poder. Na verdade, nada são, senão um fantasma do que não poderiam ter sido; que destino incontornável: não poderiam, por causa do que escolheram ser.

Flores e Frutos, foto de Euler Sandeville, 01 de janeiro de 2013.

Nada mais incômodo, para quem o busca, do que o discernimento, nada mais tóxico para todos ao redor do que aqueles que se gloriam em sua insanidade.

Ora, esses encantadores de sussurros, gladiadores da ilusão disputando as emoções da plateia dividida em exaltações que confundem a tragédia com espetáculo. Ora, esses encantadores do vazio, pessoas que gastam a vida em palavras desrespeitosas, néscias e auto referidas, ou que, se macias, são como marretas acariciando o vidro da janela, mensageiros apenas da própria ambição, da mentira e do engano, da disputa sem fim, da injustiça e da violência, da indiferença e da vaidade…

Digladiando-se em posições de poder, desde que se lembram esqueceram-se e não se importam nem podem ver aqueles que lhes parecem pequenos, pois não veem a grandeza e dignidade de toda a vida, da origem à morte. Sentindo-se grandes por um momento que lhes oculta o vazio em que existem, recusam o que pode ser grandeza apenas na humildade da existência. Atropelados pela aparência de sua própria imagem, atormentam-se como fantasmas e já vivem como se já fossem um nome antigo na parede.

Esses encantadores… que com seus encantamentos disputam a dignidade dos seres. De mitos que passam na brevidade excessiva e insuportável de sua injustiça e vaidade, aterrorizam espumando sua insensatez como ondas bravias, enquanto os rios continuam a correr para o mar, e depois que correm, outros rios correm.

A beleza e a sofisticação, mesmo se lhes alcança a boca, o que é raro, lhes escapa à compreensão e à alma, entrevados em si mesmos.

Sinto tristeza de ver tantas mortes, tanto sofrimento e brutalidade que poderiam ser evitados, se neste tempo de espetáculo e imagem, em que se fala tanto do corpo e do self, do poder do desejo e da vontade, olhássemos uns para os outros em nossa existência compreendendo nossa responsabilidade comum. Não nos deixemos enganar, nossa existência não é o que os encantadores decretam ser, é aquilo que construímos desde nossos corações aos nossos atos, sempre entre outros, nos quais se dá, necessária e inevitavelmente, nossa existência.

A fruta antes de ser fruta é flor, e antes de ser flor é polem e antes de ser polem ou semente é fruto. A natureza pulsa vida que se renova, ensinando que tudo passa, mas é belo e intenso do nascimento à morte em contínuo desvendar e aprendizado e pode, nos limites que temos em nossa natureza, ser transcendente em sua duração. Contemplar a beleza da criação e louvar ao Altíssimo com os olhos de lágrimas, não a das tristezas de nossas brutalidades e cobiça, mas a da alegria diante de Sua sabedoria e amor, de Seu cuidado desde as pequenas coisas e desde a imensidão de estrelas em galáxias em que essas pequenas coisas que somos navegam pelo tempo, em uma belíssima e extraordinária bola azul, viajando pelo tempo e pelo espaço como um abrigo e acolhimento perfeitos. Até nisso podemos perceber Sua santidade e diante dela e da beleza e do suspiro que nos foi confiado, perceber nossa responsabilidade e mudarmos.

Ainda há tempo.

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