HISTÓRIA E PRESENTE

Euler Sandeville Jr.

26 de março de 2021

Irmãos, a história da igreja, enquanto cristianismo, está longe de ser ideal e em muitos momentos sequer de ser cristã. Em muitas ocasiões parece ter como desejo contradizer o Senhor Jesus, que deveria inspirá-la. Mas, não se enganem, ao contrário do que muitos historiadores parecem ter alegado, nunca, em nenhum tempo houve uma sociedade cristã (embora tenham havido comunidades cristãs), nem haverá uma até a volta do Senhor. Há uma diferença fundamental entre o cristianISMO, que é a religião e suas estruturas, e o evangelho, que é a vida entre os irmãos sob o Senhorio de Cristo.

Nestes tempos tumultuados e contraditórios, a igreja piedosa coexiste com a igreja perseguidora, a igreja da fé com a igreja da conveniência e da conivência, a igreja de Cristo com aquela da idolatria da ambição e do amor ao dinheiro e ao poder, a igreja do amor com a igreja das ideologias e cegueiras espirituais. A igreja de Cristo, que tem de aprender na fornalha, coexiste com a igreja das estruturas e mensagens que serão derretidas diante do Criador. Aprender em Cristo não é um falar nem se trata de saber ou de alguma liturgia, mas de comunhão com Deus e com os irmãos (o nascer em Cristo), a santificação em percurso (o caminhar em Cristo) de pessoas que são tenazmente, e até inconscientemente, pecadoras.

Acho que em todas as épocas há uma igreja que se diz como tal, mas de cristã tem pouco ou até quase nada, quando não é claramente antagônica ao evangelho. Bem, isso não deve nos surpreender, está mais do que avisado como advertência para nós no Novo Testamento de que isso ocorreria, seja nos Evangelhos, nas Cartas ou no Apocalipse.

Há também o uso que aqueles interessados no poder e suas seduções e símbolos e nos negócios fazem da religião, mas para isso tem que haver conivência cúmplice ou ingenuidade dos que se encontram no campo da religião. Em muitos casos, tais condições multiplicam a injustiça, a corrupção e até a violência. Mas, para os que não conhecem o evangelho, essas distorções são vistas como cristianismo, religião, igreja, embora o nome seja pecado.

Há também aqueles que imersos em sua cultura e contexto fundem o evangelho com seu tempo, sem discerni-lo. Talvez, cada um de nós, no próprio contexto, se veja diante desse desafio. Agora falo de cristãos, servindo a Deus, pois quem pode furtar-se ao seu ambiente social, comunitário, sem um aprendizado rigoroso com Cristo, um aprendizado que não termina aqui? Cada um de nós está diante desse desafio, de ser contado entre aqueles que abraçam a simplicidade do evangelho e do amor ao próximo, despojando-se, voltando-se para os outros, para a justiça, o amor, a restauração, o evangelho vivido com simplicidade.

Em se tratando de estudar a história antiga ou contemporânea do cristianISMO essa dificuldade se coloca, pois uma coisa é idealizar os fatos (o que é inadequado), outra é reconhecer os fatos sem idealizá-los, outra ainda é a capacidade de discerni-los em sua complexidade espiritual e perceber o caminho de Deus para os humanos em meio aos descaminhos humanos. Para a Antiguidade, temos as Escrituras para nos iluminar os olhos, mas para o restante da história temos que discernir entre as brumas dos tempos e dos registros, com seus saberes e paixões que sobrevivem. As Escrituras não camuflam os fatos, apresentam os problemas e Deus está sempre propondo, como fez a israel e a seus discípulos de todos os tempos, a oportunidade do arrependimento e do caminho da fé.

Vivemos tempos tensos e contraditórios, como foram os que se passaram antes de nossa brevidade, e mais difíceis quando são de transição, como estes. Tempos demarcados por pecadores, entre os quais os cristãos, que muitas vezes enredam-se em maldades e em coisas contrárias a Deus, ou são seduzidos pelos brilhos e refulgências do próprio tempo, não discernindo, pela intimidade e costume intelectual ou vivencial, que estas são apenas sombras passageiras perto da simplicidade do evangelho.

Assim é em nosso tempo e em nossas vidas, temos que discernir e confessar nosso pecado, como indivíduos e igreja, e corrigir os caminhos olhando para Cristo, na Palavra, no Espírito, uns com os outros. Daí porque a Escritura fala do ensino e do compartilhar mútuo, da oração em comum, para aprendermos a caminhar com o Altíssimo em meio às névoas do presente.

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