MEDITAÇÃO SOBRE O DOMINGO

Euler Sandeville Jr.

14 de março de 2021

Hoje é domingo, um tempo de descanso e interrupção do trabalho cotidiano que, para a grande maioria dos cristãos, desde tempos muito remotos, é reservado à adoração, à reunião da igreja (e não na igreja) e ao ensino da Palavra, isto é, a leitura das Escrituras judaico-cristãs e seu compartilhamento e ensino pastoral pelos anciãos e irmãos para a vida comum (a função sacerdotal desenvolveu-se depois, como também a figura do pastor moderno).

Portanto, nem sempre foi como estamos habituados hoje. Há, na história desse dia, que para muitos passou a ser sagrado, uma história que é pagã e uma história que é cristã. Em um processo longo, encontram-se por caminhos diversos as tradições da cultura judaica e da cristã que daí emerge, e aquelas da cultura pagã greco-romana e dos bárbaros de onde também vieram a grande maioria dos cristãos, ligadas à adoração de vários deuses (daí vem tanto o nome nas línguas latinas, domingo, Dia do Senhor, o nome em inglês, Sunday, dia do Sol).

Aqui não é lugar para destrinchar essa complexidade do sagrado e suas longas tradições, idas e vindas. O fato é que termos o sábado e o domingo modulando nossas semanas é uma decorrência da assimilação de valores judaicos e dos primitivos cristãos, que propugnavam, seguindo as Escrituras, um dia semanal de descanso e adoração. Essa contribuição atingiu assim todas as pessoas em muitas sociedades, secularizando-se apenas em tempos mais recentes.

O que era uma tradição judaica e depois cristã só começa se tornar uma tradição social com a oficialização desse princípio do descanso e da veneração a partir do Édito de Constantino, firmado no Édito de Milão no que para nós passou a ser março de 321(mas essa datação também é bem posterior, o calendário romano era outro, março era então o primeiro mês romano, em honra ao deus da guerra Marte). o Édito de Milão não oficializava o cristianismo, como muitas vezes se diz (o que só ocorre no final desse mesmo século IV), mas concedia liberdade de culto a todas as religiões e trazia a igreja cristã para a esfera do poder Imperial:

"(…) decidimos em primeiro lugar e antes de tudo, emitir regras destinadas a assegurar o respeito e a honra da divindade, isto é, decidimos conceder aos cristãos e a todos os outros a livre escolha de seguir a religião que quisessem, de tal modo que tudo o que existe de divindade e de poder celeste nos possa ser favorável, a nós e a todos os que vivem sob a nossa autoridade" [1]

De início, os primeiros cristãos eram judeus e guardavam o sábado e no primeiro dia da semana, entre outros dias, se reuniam para a comunhão do pão e o partilhar da palavra. O que era natural, posto que no ambiente da sinagoga isso já seria incompatível. Com o crescimento crescente de conversos de origens não judaicas nas cidades do Império, e mesmo com a destruição de Jerusalém e do Templo nos ano 70 d.C., a igreja foi desenvolvendo um caminho diverso e o domingo, que lembrava o dia da Ressurreição do Senhor, foi se afirmando paulatinamente como um dia especial para os cristãos.

Porém, no primeiro século, as celebrações cristãs não se restringiam ao primeiro dia da semana, como demonstram tanto as Escrituras (Atos 2. 46,47) quanto documentos históricos (Carta de Plínio ao Imperador, do início segundo século).

"Foram unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas a isso: em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento não a algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo. Carta de Plínio a Trajano" [2]

Aparentemente, entretanto, por meados do segundo século (Didaquê), já havia uma celebração litúrgica centrada no primeiro dia da semana. Os cristãos, contudo, estavam à margem do Império e assim ficariam por dois séculos: esse era um costume exclusivo das igrejas, distinto em tudo das demais celebrações religiosas e oficiais da época e não havia um “domingo” tal como o concebemos hoje, muito menos um domingo secular, bem mais recente.

Mas o que significa termos um dia para adorar a Deus? Em si mesmo, nada!
(veja a Carta aos Colossenses 2.16).

Não é no dia que está o que é relevante, mas é na reunião da igreja (igreja são os que creem, jamais um prédio) para a comunhão entre os irmãos, a oração, a adoração com cânticos e louvores, a leitura e o ensino da palavra e a ceia do Senhor. Pois todos os dias são Dia do Senhor, ou nenhum deles é. E o que comemoramos nesse dia? A sua ressurreição, até que Ele volte.

E para quem não é cristão? Aproveite esse dia para descansar e, quem sabe, para meditar nos sentido desse dia e dos demais, no sentido da vida através dos dias.

O sagrado não emana do dia nem da liturgia para o espírito e o coração, mas emana da comunhão com Deus no espírito e no coração para o dia e os serviços e celebrações ao longo de qualquer dia, inclusive o sábado e o domingo. Aproveitemos assim a oportunidade do domingo, e de cada dia, com seu sentido mais sublime em nossas vidas.


notas

notas . 1, 2, as notas foram retiradas de um site em 2018, atualmente considerado vulnerável pelo navegador, pelo que não reproduzo aqui a fonte.

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